A bela Espia
Barbara Cartland

Ttulo original: Ruled by Love
Copyright: c 1995 by Barbara Cartland


A BELA ESPI 
 
 A PRINCESA QUE TENTOU SALVAR UM REINADO E CONQUISTOU UM PRNCIPE! 

Disfarada de dama de companhia, a misso de Zuleika era, na verdade, servir de espi para descobrir uma trama para invadir o pequeno principado da Silsia. Tudo ia muito bem, at aparecer o prncipe Vaslov. Vaslov achava a dama de companhia da princesa refinada demais, bela demais. 
Uma mulher como aquela devia ser o porto-seguro para um homem acostumado a viver tenses e conflitos. E era isso que ele queria. Uma mulher que no representasse perigo. Mas era a que ele estava enganado!

NOTA DA AUTORA

Foi a riqueza do carvo, chumbo, zinco e ferro na Silsia que incitou Frederico II, da Prssia, a tentar tomar esse pas de Maria Teresa, a herdeira dos Habsburgos, na guerra de 1740.
Dois anos mais tarde, de acordo com o Tratado de Berlim, a rainha Maria Teresa foi obrigada a ceder para os prussianos a Baixa e a Alta Silsia, com excepo de Krnov, Opava e Cieszyn.
Quando li sobre aqueles trs principados que permaneceram independentes, imaginei-os como um cenrio perfeito para a histria emocionante narrada neste livro.

CAPTULO I

1820

A princesa Zuleika desmontou do excepcional puro-sangue negro, agradeceu ao cavalario a quem entregou as rdeas do animal e entrou no palcio.
- Onde est Sua Alteza Real? - perguntou ao ajudante-de-ordens.
- Na biblioteca, Alteza - ele informou.
Ansiosa para ver o pai, a jovem princesa correu pelos recantos do palcio. Tinha certeza de que encontraria o prncipe sentado  escrivaninha, concentrado no livro que escrevia sobre a histria da Silsia.
Ouvindo a porta abrir-se, o prncipe ergueu a cabea e sorriu para a filha.
- Ah, minha querida,  muito bom v-la de volta.
- Vim dizer-lhe, papai, que o cabalo novo  extraordinrio e muito veloz! O senhor e eu podemos apostar uma corrida - props Zuleika.
- Est bem. Que tal amanh? Acredito que no estarei muito ocupado. - O prncipe levantou-se e ficou de p junto  lareira que, por ser vero, estava repleta de flores. - Quero falar-lhe, minha filha. Sente-se perto de mim. 
Sua expresso tornou-se to sria que Zuleika olhou para ele, surpresa.
O prncipe Laszlo era muito bonito. Seus cabelos j comeavam a ficar grisalhos nas tmporas, mas ele era activo, excelente cavaleiro e tinha um fsico de atleta.
Zuleika sentou-se e aguardou, apreensiva.
- Receio que voc no gostar do que lhe vou dizer - o prncipe comeou. - No entanto, trata-se de algo que ter de fazer, minha filha.
- Terei de fazer? O que , papai?
- Esta manh chegou do palcio um emissrio de Krnov. O primeiro-ministro daquele principado mandou convid-la, minha filha, para ser dama de companhia da princesa Adele.
- Dama de companhia! - Zuleika repetiu, perplexa. - Espero que o senhor tenha dito "no", papai!
- Pedi algum tempo para discutir com voc. Na minha opinio, no pode recusar o convite - ponderou o prncipe.
-  claro que no quero morar em Krnov! No posso deix-lo, papai! - Zuleika protestou. - Sentirei saudades do senhor.
- Tambm sentirei muito sua falta.  claro que eu teria dito "no" se ignorasse que a situao em Krnov  muito sria - o prncipe argumentou.
- Sria? Por que diz isso, papai?
- Voc sabe to bem quanto eu, filha, que Opava, Krnov e Cieszyn so os nicos principados independentes daquilo que j foi uma Silsia livre.
- Sim, papai. Conheo bem a histria da Silsia.
Zuleika lembrou que em 1742, de acordo com o Tratado de Berlim, a rainha Maria Teresa da ustria fora obrigada a ceder a Alta e a Baixa Silsia ao rei Frederico II da Prssia, com excepo dos trs principados: Krnov, Opava e Cieszyn, que ergueram a cabea e mantiveram sua independncia.

Rica em carvo, chumbo, zinco e ferro que, extrados das minas, eram utilizados nas fbricas, a Silsia tornara-se um dos mais importantes distritos industriais da Europa.
Na Guerra dos Sete Anos, de 1756 a 1763, os austracos tentaram recuperar a Silsia, mas no conseguiram.
- Como soberano de Opava, orgulho-me de dizer que nosso povo tem demonstrado que merece sua independncia. Acredito que conquistamos o respeito at mesmo de nossos vizinhos prussianos - prosseguiu o prncipe, interrompendo os pensamentos da filha.
- Conquistamos esse respeito graas ao senhor, que tem sido maravilhoso e sabe lidar com nossos vizinhos com tacto e diplomacia. No passado os prussianos nos desprezavam - Zuleika observou.
- O que me aborrece  a atitude do prncipe Majmir. Ele no procura ser cordial com nenhum de seus vizinhos livres. Mas no posso julg-lo, pois mal o conheo.
- No entanto, o senhor tem ouvido comentrios a respeito dele - lembrou Zuleika.
- Comentrios desabonadores, infelizmente. - O prncipe suspirou. - Ao contrrio do que aconteceu em Opava, Krnov estacionou. Sua Alteza Real no tem fomentado o progresso de Krnov e no explora suas riquezas minerais. Meu receio  que os prussianos acabem assumindo o poder daquele principado.
- Eles no podem fazer isso! - Zuleika exclamou. - Se o fizerem, invadiro tambm Opava e Cieszyn.
-  o que eu receio. Compreende agora, minha filha, que a sua ida a Krnov ser providencial? Voc  inteligente e poder ser muito til se estiver dentro do palcio. Eu no posso interferir, pois o prncipe Majmir, provavelmente, dir para eu cuidar de minha prpria vida. Mas voc poder ver o que h de errado e mostrar o que deve ser feito.
- Duvido que eu possa ajudar em alguma coisa. O prncipe no me ouvir - Zuleika contraps.
- Bem, minha filha, o que quero  obter informaes sobre o que est acontecendo realmente. Se eu ficar sabendo que h perigo iminente de invaso dos prussianos, me aliarei ao prncipe Vaslov, de Cieszyn. Juntos teremos mais condies de manter a independncia.
- Como  o prncipe Vaslov? - Zuleika interessou-se em saber.
- H anos que no vejo o jovem prncipe. Depois de terminar a universidade com brilhantismo ele decidiu viajar pelo mundo - o pai esclareceu.
- Faz muito bem. Ele subiu ao trono recentemente, no? 
- Sim, o pai morreu seis meses atrs. Disseram-me que, com suas idias novas, o prncipe Vaslov est transformando o principado. Em poucos meses Cieszyn j d mostras de progresso em vrios sectores.
- O prncipe Vaslov demonstra que tem amor  sua gente e ao pas. Ele ser um ptimo aliado, papai.
-  o que eu quero. Ns, os soberanos dos trs principados independentes, devemos deixar de lado a nossa individualidade e nos unir. Caso contrrio, seremos engolidos pelos prussianos da Alta e Baixa Silsia.  por esse motivo que estou ansioso para saber o que acontece em Krnov.
- Compreendo. Entretanto, embora seja assustador ficar no palcio como informante, o que mais me desagrada  afastar-me do senhor, papai - Zuleika queixou-se.

- E voc acha que no sofro s de pensar na nossa separao, minha querida? Agora que suas aulas com preceptores e sua governanta terminaram, eu tinha grandes planos para ficarmos juntos mais tempo. S voc consegue me alegrar e impedir que eu caia em depresso como aconteceu h um ano, quando sua me morreu - disse o prncipe com uma nota na voz que revelava o quanto ele sofria por ter perdido a esposa.
- Ainda sinto muito a falta de mame - Zuleika murmurou.

A morte da princesa Helen fora inesperada. Sua Alteza Real era extremamente feliz e demonstrava ser muito saudvel. Visitava com frequncia os pobres, velhos e doentes, achando que era dever fazer isso.
Por ocasio da visita a uma famlia onde havia um homem recm-chegado do Oriente, a princesa contraia uma doena desconhecida dos mdicos de Opava, mas que no parecia grave.
Notando que apesar do tratamento a esposa piorava, o prncipe Laszlo mandou vir de Viena o mdico mais renomeado. Mas quando ele chegou a princesa j estava morta.
A morte de sua alteza Real foi um golpe para todo o principado, pois a princesa Helen era muito querida; os pobres veneravam-na por sua bondade e dedicao.
Inglesa de nascimento e parente distante da rainha Vitria, a princesa Helen fora prometida em casamento ao prncipe Laszlo. Quando os noivos se conheceram apaixonaram-se e foram gloriosamente felizes.
A princesa Helen lamentava no ter dado ao marido um filho que sucedesse no trono. Mas o casal adorava a filha, para eles um anjo enviado do cu.

Lembrando-se da me, Zuleika perguntou ao prncipe:
- O senhor acha, papai, que, se vivesse, mame aprovaria minha ida a Krnov para ser dama de companhia da princesa Adele?
- Com toda certeza - o pai respondeu. - Helen jamais deixaria de atender algum que a ela tivesse pedido ajuda.
- Pedido ajuda? - Zuleika estranhou. - A meu ver o primeiro-ministro me fez apenas um convite.
- Engana-se, filha - o prncipe discordou. - Entendi nas entrelinhas que o primeiro-ministro recorreu a mim porque ele e todo o gabinete esto preocupados. Eles precisam do meu apoio e da minha ajuda. Portanto, tenho de saber qual  a verdadeira situao em Krnov.
- E o senhor acha que eu conseguirei as informaes de que precisa, papai? Isso no ser fcil para uma dama de companhia da princesa - Zuleika considerou.
- Pelo menos voc pode tentar. Confio na sua intuio e sua inteligncia. - Havia uma ruga funda na testa do prncipe.
Um estremecimento passou pelo corpo de Zuleika. O que menos desejava era ficar sob o jugo da Prssia. Os prussianos eram um povo dinmico, eficiente e progressista, porm ambicioso e opressor.
Era verdade que a Silsia tornara-se muito mais rica e poderosa aps ter ficado sob domnio da Prssia, mas nem por isso os silesianos eram felizes.
Ouvia-se falar sobre perseguies e protestos do povo contra os altos impostos.
Aps um instante em silncio, Zuleika quis saber:
- Se eu aceitar o convite feito pelo primeiro-ministro, quanto tempo devo ficar em Krnov?

- Vai depender das informaes que voc obtiver. O principal  descobrir se precisamos reforar nossas defesas antes que seja tarde demais.
- Se os prussianos esto interessados em Krnov, eles j devem ter colocado l seus agentes e sabem melhor do que ningum de tudo o que est acontecendo - Zuleika argumentou.
- Posso afirmar que a situao no  to crtica a esse ponto - disse o prncipe. - Por enquanto, h tranquilidade em Krnov e o povo parece feliz. Porm, o actual primeiro-ministro, homem inteligente e com experincia, embora ocupe o cargo h pouco tempo, est apreensivo, achando que o laisser-faire poder vir a ser desastroso.
A princesa Zuleika era inteligente e muito culta. Apreciava bons livros e dava grande valor  biblioteca enorme que havia no palcio. Tanto ela como o pai gostavam de ler os novos livros publicados para discutir sobre o que haviam lido.
Embora no demonstrassem, Zuleika e o pai no gostavam dos prussianos porque eles se beneficiavam das riquezas da Alta e da Baixa Silsia e da quantia fabulosa que arrecadavam com taxas e impostos, mas tratavam o povo com desdm.
Na verdade, no havia ningum na Silsia que no preferisse a distncia dos Habsburgos  dos Huhenzollern.
Alguns anos passados, quando as minas de ouro e prata se esgotaram, os prussianos, irritados com a queda na arrecadao, tiraram dos silesianos o que puderam.
Conhecedores da ganncia e da agressividade dos conquistadores da Silsia, os trs principados independentes mantinham-se bem armados e atentos. Porm, recentemente, Krnov no vinha seguindo o exemplo dos outros dois principados e isso preocupava o prncipe Laszlo.
Graas  unio e ao eficiente sistema de defesa, os principados de Krnov, Opava e Cieszyn, eram respeitados e asseguravam sua liberdade. Com um deles enfraquecido ou se os trs no mantivessem a unio, seriam presas fceis para um inimigo poderosssimo como era a Prssia.

Zuleika foi at a janela e olhou para o jardim repleto de flores. Nesse instante pombas brancas, pousadas no largo peitoril, voaram na direco da linda fonte de mrmore.
 - Como suportarei afastar-me do senhor e de tudo isto, que  to lindo, e que amo tanto, papai? - ela questionou. 
- Nada nos impede de recusarmos o convite do primeiro-ministro e continuarmos aqui, felizes. Mas devemos ser honestos o bastante para reconhecer que o nosso povo corre perigo. - O prncipe sentou-se  escrivaninha e esmurrou-a, demonstrando indignao. - Por que o prncipe Majmir no  um soberano mais devotado a seu povo? O que estar acontecendo para ele mostrar-se to negligente?  verdade que Majmir perdeu a esposa, mas sua morte ocorreu h alguns anos e j houve tempo de recuperar-se. Alm disso, segundo dizem, Majmir no a amava. Receio que o prncipe no d ateno  filha, da mesma forma que negligencia o pas.
- Como pode ser isso? O prncipe Majmir deve estar doente - Zuleika opinou.
-  uma possibilidade. O emissrio apenas insinuou que o prncipe no se interessa pelo que acontece no dia-a-dia e deixa o governo do pas aos cuidados do gabinete. O primeiro-ministro anterior foi um desastre.

- E o primeiro-ministro actual est tentando organizar o governo e modernizar o pas - Zuleika deduziu.
- Sim, mas ser uma tarefa rdua. O emissrio do primeiro-ministro insinuou que a princesa Adele deve ter uma dama de companhia capaz de ajud-la a preparar-se para ocupar o trono - revelou o prncipe Laszlo.
- Como, papai? - Zuleika arregalou os olhos. - Ento o prncipe Majmir est pensando em abdicar?
- Espero que no. O primeiro-ministro est apreensivo porque a princesa Adele, apesar de ter completado dezoito anos,  imatura.
- Uma princesa imatura no trono seria uma oportunidade excelente para os prussianos ocuparem Krnov - Zuleika raciocinou.
- Voc acaba de expor o meu pensamento.
Zuleika deu um profundo suspiro.
- Est bem, papai, irei a Krnov - decidiu. - Ficarei com a princesa at descobrir o que est acontecendo. Acredito que em pouco tempo conseguirei as informaes que o senhor precisa. Ento, com a desculpa de que estou com saudades do senhor, virei contar-lhe o que descobri. Uma vez em casa, eu "ficarei" gravemente enferma e o primeiro-ministro ter de encontrar outra dama de companhia para substituir-me.
- Voc est indo depressa demais, filha! - protestou o prncipe erguendo as mos. - Temos de vencer um obstculo de cada vez. O primeiro deles  voc aceitar o convite do primeiro-ministro e instalar-se no palcio como dama de companhia da princesa Adele. Ento veremos o que fazer.
- Estive pensando que os prussianos adorariam colocar as mos tanto em Opava como em Krnov. Ambos os principados tm muitas riquezas, entre elas chumbo, ferro e zinco em grande quantidade e h procura cada vez maior desses metais.
- Pois os prussianos no tero nada do que  nosso - o prncipe falou com determinao. - Voc ir para o palcio do prncipe Majmir, querida filhinha e, tenho certeza, com sua perspiccia e inteligncia, descobrir o que se passa em Krnov. Suas informaes sero precisas.
- No temos comunicao diplomtica com Krnov? - Zuleika perguntou.
- No. Nunca precisamos disso. Nada queremos daquele principado e eles, excepto agora, nunca precisaram de ns. - O prncipe Laszlo deixou a escrivaninha e foi sentar-se perto da filha. - Devo ser honesto para admitir que eu j devia ter feito alguma coisa por Krnov. Eu pressentia que algo no ia bem no principado de Majmir, mas no dava ouvido a uma voz interior que me dizia para tomar alguma providncia. Fui protelando, mas como hoje recebi o emissrio do primeiro-ministro, convenci-me de que chegou o momento de agir. Eu daria tudo para no exp-la dessa forma, mas devemos pensar na segurana, no apenas de Opava, mas dos trs principados independentes da Silsia.
- Pelo bem de todos, tentarei descobrir o que h de errado em Krnov e com o prncipe Majmir, papai. - Zuleika inspirou fundo. - Quando devo partir?
- O mais depressa possvel. Acredito que ficaremos pelo menos um ms sem nos ver. Ser um perodo triste e sombrio para mim, querida - declarou o prncipe. 
- Onde se encontra o emissrio do primeiro-ministro de Krnov?

- Mandei-o falar com os membros do Conselho. Mas tenho certeza de que o rapaz foi instrudo para no revelar coisa alguma, por mais que lhe fizesse perguntas.
- Ao que tudo indica, terei dificuldade de conseguir informaes no palcio de Krnov - Zuleika conjecturou.
O pai sorriu.
- Nunca soube que voc tenha ficado sem descobrir algo que fosse do seu interesse, minha filha. A ocasio ser mais do que propcia para voc usar o "terceiro olho" como aprendeu a fazer desde criana - enfatizou o prncipe.
Zuleika sorriu ao lembrar-se da infncia, quando ouvira falar sobre o "terceiro olho" pela primeira vez.

A princesinha Zuleika estava com seis anos quando ganhou um livro sobre o Egipto e viu numa das ilustraes um fara com um olho desenhado na testa, pouco acima do nariz. O pai explicou-lhe que aquilo era a representao do que os egpcios chamavam de "terceiro olho".
Os faras usavam esse "terceiro olho" para captar instintivamente e com clarividncia coisas que outras pessoas no percebiam ou no viam.
Zuleika achou to engraada a explicao que chegou a fazer uma marca na testa e disse aos pais que tambm possua um "terceiro olho" - estava com doze anos - entendeu que, na verdade, o que para os egpcios era o "terceiro olho", podia ser chamado de intuio, sexto sentido ou percepo intuitiva.
O pai contou-lhe histrias de pessoas que se salvaram da morte certa ou fizeram grandes descobertas graas  sua intuio.
Achando o assunto apaixonante, Zuleika passou a ler o que encontrasse sobre o mesmo e tambm comeou a exercitar-se para desenvolver sua intuio.
Obteve tanto sucesso que ela se orgulhava de conhecer, quase imediatamente, o carcter e a personalidade de homens e mulheres a quem era apresentada.
Sua percepo intuitiva era to aguada que o prncipe Laszlo, sempre que ia empregar um ajudante-de-ordens ou um criado, pedia para a filha permanecer no fundo do gabinete observando o candidato que estava sendo entrevistado. Depois que este saa, Zuleika dava sua opinio sobre ele.
No raramente o prncipe perguntava  filha que impresso ela havia tido de pessoas convidadas para o jantar e constatava, satisfeito, que ela no se enganava ao apontar as suas qualidades e pontos fracos.
At para escolher suas amigas Zuleika usava o que passara a chamar de seus "poderes".
Dois anos atrs, quando a princesa Helen ainda era viva, aconteceu um facto curioso. Um cavalheiro convidado para uma recepo no palcio trouxe consigo uma senhora para fazer-lhe companhia.
Essa senhora mostrou-se extremamente gentil e cativou a bondosa princesa Helen. Dias depois a mesma senhora mandou flores e presentes para a princesa e tambm para Zuleika.
- Essa mulher  m e falsa, mame. No quero os presentes que ela mandou e a senhora tambm no deve aceit-los - Zuleika aconselhou a me.
- No podemos recus-los, filha. Seria indelicado de nossa parte - alegou a princesa.

Sem argumentar, Zuleika pegou as flores e os presentes, fez com eles uma fogueira e esperou-os queimar at tudo virar cinzas.
- Por que fez tamanha tolice - indagou a princesa Helen quando a filha lhe contou o que fizera. - Voc poderia dar os presentes para pessoas pobres que os receberiam com prazer.
- No, mame, seria um erro algum toc-los - Zuleika replicou com firmeza.
Meses depois a mulher em questo foi presa por trfico de drogas
Quando a princesa Helen perguntou  filha como ela ficara sabendo que a tal mulher era m, Zuleika respondeu:
- Usei meu "terceiro olho", mame.

O emissrio do primeiro-ministro, o jovem Anton Bauer, entrou na sala e foi apresentado a Zuleika que logo simpatizou com ele.
- Fale-me sobre a princesa Adele - Zuleika pediu. - Ela tambm  filha nica como eu, no?
- Sim, Alteza. A princesa sente-se muito s. Ser ptimo para ela ter a companhia de outra jovem - Anton Bauer respondeu.
Zuleika fez outras perguntas para o rapaz, porm ele mostrou-se evasivo.
O prncipe Laszlo saiu do gabinete e Anton Bauer ficou mais descontrado.
- Eu gostaria de saber como  o palcio de Krnov - Zuleika falou em tom persuasivo.
- Ah, sim. Eu trouxe um folheto com ilustraes sobre o palcio, inclusive com a planta do mesmo, justamente para mostr-la a Vossa Alteza.
-  muita gentileza sua. Obrigada. Deixa-me v-lo.
Anton Bauer tirou do bolso o folheto em questo e mostrou a Zuleika a entrada majestosa do palcio, o hall e os sales de recepes que ficavam no andar trreo.
- Em que ala ficam os aposentos principais? - Zuleika quis saber.
- Ficam nestas duas alas. So sutes luxuosas e amplas. Estas so as do prncipe Majmir e sua famlia. Aqui ficam as sutes reservadas aos hspedes importantes. - Anton Bauer foi indicando os cmodos enquanto falava. - Raramente h visitantes no palcio, de modo que os aposentos esto sempre fechados.
- Deve ser extremamente aborrecido para uma moa de dezoito anos, como a princesa, ficar sozinha nesse palcio to grande - Zuleika observou. - Mas, fale-me um pouco mais sobre as sutes. Qual delas  a mais bonita, depois das de Sua Alteza Real, claro.
- Todas so amplas, lindas e tm nomes de flores. A meu ver a "Sute das Rosas"  a mais encantadora - opinou Anton Bauer. - No h quem a no a admire.
- Suponho que a decorao seja toda cor-de-rosa.
- Sim, e as paredes so pintadas de rosa, dourado e branco.
- Quais so os aposentos da princesa Adele?
- Como a princesa ainda tem aulas com a governanta e preceptores, seus aposentos ficam no segundo andar da ala Leste.  uma sute ampla e consta de quartos, sala de estudos, de estar e de brinquedos. Tambm h uma pequena cozinha - Anton Bauer mencionou.

- Mas voc est descrevendo os aposentos infantis do palcio! - Zuleika admirou-se. - Aos dezoito anos a princesa no pensa em mudar-se para os aposentos do primeiro andar, reservado  famlia?
- Oh, no!
Embora achasse estranho, Zuleika no quis fazer mais perguntas sobre o palcio. Passou a falar sobre sua chegada a Krnov.
- Eu mesma irei receb-la na fronteira, numa carruagem do palcio - informou o rapaz. - Estarei na hospedaria que h logo  entrada de Krnov. Ali almoaremos e ento seguiremos para o palcio.
No era o que Zuleika esperava. Imaginou que o primeiro-ministro teria mais considerao para com a filha de um soberano.
- Est bem. Era o que eu queria saber. Obrigada pelas informaes - Zuleika agradeceu e dispensou o jovem emissrio.
Ficando sozinha ela reflectiu que era muito estranho a princesa Adele, aos dezoito anos, ocupar ainda os aposentos infantis.

O prncipe Laszlo informou Anton Bauer que a princesa Zuleika partiria para Krnov dentro de trs dias.
Para seus acompanhantes ela escolheu, alm de Marla, sua criada pessoal, de inteira confiana, um ajudante-de-ordens, Pieter Seitz, senhor de quarenta anos, que havia quase duas dcadas trabalhava no palcio de Opava.
Pieter Seitz, Zuleika reflectiu, poderia agir fora do palcio de Krnov, teria muitas oportunidades de conversar com empregados, com o povo, e de ir a lugares aonde ela no teria como chegar.
Na vspera da viagem Zuleika e o pai jantaram a ss na sala de jantar privativa de Sua Alteza Real.
- Cuide-se bem, papai, e pense em mim todos os dias - ela recomendou.
- Voc sabe que farei ambas as coisas. Sentirei muita falta de nossos passeios a cavalo. - Em voz mais baixa o prncipe acrescentou: - Quando cavalgvamos pelos campos, sozinhos, podamos ter certeza de que ningum nos ouvia.
- Por falar nisso, j me ocorreu que no palcio de Krnov deve haver buracos bem escondidos nas paredes, atravs dos quais um agente poder ver e ouvir o que se passa ou  dito no cmodo contguo. J li que isso  muito comum nos palcios de diversos pases, principalmente nos da Rssia.
- No acredito que Anton Bauer tenha tido a mais leve suspeita de que voc est indo para Krnov interessada em descobrir o que se passa naquele principado. Assim, voc ser tratada como uma garota cuja nica preocupao  ser uma companhia agradvel para a princesinha Adele.
- Mas estarei de olhos bem abertos e ouvidos aguados!- Zuleika ressaltou.
- Por favor, no faa anotaes sobre o que descobrir - recomendou o prncipe.
- No farei isso, claro! - Zuleika prometeu. - Sei que ser comprometedor. Precisamos combinar uma maneira de transmitir ao senhor o que eu descobrir.
- J pensei nisso e decidi mandar com voc um outro ajudante-de-ordens em quem confio plenamente. Com a desculpa de trazer-me notcias suas ou de levar-lhe presentes ou coisas de que voc precise, ele servir de nosso mensageiro.

- Creio que um mensageiro  ptima idia. Em todo caso, se for muito srio o que eu tiver que lhe dizer, papai, virei avis-lo pessoalmente - disse Zuleika.
- S lhe peo que no se arrisque, minha querida. Tambm no faa nada que possa levantar suspeitas sobre voc - o pai aconselhou.
- No se preocupe, papai, serei muito cautelosa - a princesa assegurou. - Enquanto permanecer em Krnov estarei atenta. Tudo farei para no perdermos a nossa independncia, que  preciosa demais.
- Confio em voc, minha querida. - O prncipe colocou a mo sobre o ombro da filha. - Quando voc voltar para Opava vamos oferecer o mais lindo baile que j houve neste palcio. Sinto-me culpado por no ter-lhe oferecido mais festas, como sua me gostaria que eu tivesse feito.
- Os bailes podem esperar e tambm os rapazes. Prefiro sua companhia  de pessoas jovens como eu.
- Voc completou dezoito anos e creio que chegou o momento de eu comear a concentrar-me nos pretendentes aceitveis que h nas redondezas.
- Pretendentes  minha mo?! - Zuleika surpreendeu-se. - Ainda no estou pensando em casamento, papai!
- Porque diz isso? Toda a jovem pensa em se casar aos dezoito ou dezanove anos - apontou o prncipe.
- Bem, a questo no  a idade. Tenho medo de casamentos arranjados. O senhor e mame foram felizes porque se apaixonaram um pelo outro assim que se conheceram. Casos assim dificilmente acontecem. Vocs poderiam se detestar - Zuleika considerou. - Ento, como seria?
- Honestamente, receei que isso acontecesse - o prncipe confessou. - Mas fui educado para ser o futuro soberano de Opava e desde muito cedo aprendi que a ptria deve estar sempre em primeiro lugar, portanto, acima de meus sentimentos.
- Tambm sou herdeira do trono, mas no abro mo da minha felicidade no casamento e espero encontrar o verdadeiro amor.
- Vamos rezar para que voc o encontre - sugeriu o prncipe. - Tambm a aconselho a usar o seu "terceiro olho" sempre que um apaixonado colocar o corao aos seus ps.
Zuleika riu.
Em outro tom o prncipe acrescentou:
- Algo me diz, minha filha, que voc encontrar a felicidade quando menos esperar.
- Acredito que sim. Rezo sempre para mame e sei que posso contar com a sua ajuda - Zuleika falou suavemente.
- Claro, filhinha.
- Bem, partirei amanh e devo pensar na minha nova vida. Eu gostaria que o palcio de Krnov fosse movimentado e alegre como o nosso. Mas, suponho que, ao contrrio, l haver pessoas se curvando e fazendo mesuras a cada minuto; a comida deve ser insossa e nada acontece, excepto tempestades com trovoadas!
Como Zuleika esperava, seu modo de falar provocou o riso do pai.
- Espero que no seja to mau assim.

- Lembro-me do modo como mame descrevia os palcios onde havia estado. Ela falava da pompa, do protocolo e da rigidez que neles reinavam e que os tornavam insuportveis. Quando casou com o senhor fez questo de que este palcio fosse alegre e florido; um lugar onde as pessoas se sentissem felizes.
-  verdade. Mesmo depois de Helen ter partido ns dois conseguimos manter aqui esta atmosfera de alegria e beleza que ela criou.
- Conseguimos, claro.  desanimador pensar que em Krnov nada ser como aqui - Zuleika queixou-se.
- No faa juzos antecipados. Espere chegar l para ter sua opinio sobre Krnov e o prncipe Majmir - o pai a aconselhou e deu-lhe um beijo de boa noite.

Afastando-se do pai, Zuleika pensou na solido e na infelicidade dele quando ela partisse.
"Talvez o meu dever seja permanecer aqui, do lado de papai", reflectiu ao dirigir-se para a escada.
No mesmo instante lhe ocorreu que estava indo para Krnov por uma razo muito sria. Ento uma cena dramtica formou-se em sua mente.
Imaginou as colunas de soldados prussianos uniformizados, com seus canhes, aguardando na fronteira. A seguir eles marchavam para Krnov e o principado perdia a sua independncia.
Com um estremecimento, Zuleika afastou da mente aquela cena.
"Tenho de salvar Krnov do domnio da Prssia", pensou.
Como iria fazer isso, no tinha a menor idia.
O pior era que se sentia amedrontada como nunca se sentira na vida.

CAPTULO II

Ao entrar em seu quarto Zuleika tinha um plano em mente. Queria causar impacto quando chegasse a Krnov.
Se o povo da cidade, o pessoal do palcio e o prprio prncipe Majmir fossem apticos como ela estava imaginando, iria faz-los despertar.
Pretendia, logo ao chegar, impressionar a todos, impor-se e fazer valer sua autoridade. Para isso alguma encenao seria necessria.
Marla, a criada pessoal da princesa estava  sua espera e Zuleika segredou-lhe:
- Vou precisar da sua ajuda, Marla. Quero chamar a ateno quando chegar a Krnov e meus vestidos, apesar de lindos, so prprios para uma debutante. S agora me ocorreu que eu deveria ter comprado pelo menos um traje de viagem mais sofisticado e um ou dois para usar no palcio. Como no comprei, estive pensando que voc poderia alterar dois deles para mim, deixando-os mais enfeitados. Que adereos podemos escolher para deixar esses dois vestidos mais... vistosos?
A criada ficou pensativa, depois sugeriu timidamente:
- Vossa Alteza poderia usar alguns vestidos de sua me. Sei que eles lhe serviro como uma luva.
- ptima idia - Zuleika aprovou. - Eu nem pensaria em usar as roupas de mame se no tivesse um motivo muito importante para isso. Sei que papai no gosta que algum mexa em nada que pertenceu a ela.
Jias, ela j possua. Na noite anterior, finalmente, o prncipe Laszlo havia tirado do cofre algumas jias que pertenceram  princesa Helen e as entregara  filha, dizendo:
- Agora que voc est mais velha, pode usar jias como um colar de prolas ou um bracelete. Neste porta-jias esto as peas mais delicadas de sua me.
Zuleika e Marla foram at o quarto da falecida princesa. Tudo ali estava como ela havia deixado. O prncipe no permitira que mexessem em nada.
Os vestidos de festas da princesa Helen estavam pendurados no guarda-roupa e eram carinhosamente guardados pela governanta. Zuleika escolheu dois vestidos de baile, ricamente bordados e salpicados com pedras brilhantes, alm dos chapus ou arranjos para a cabea, das estolas e bolsas que acompanhavam as toaletes.
- Para a viagem Vossa Alteza poderia usar o conjunto novo e a capa que pertenceram  princesa Helen. - Marla sugeriu. - Foram usados apenas uma vez.
Aceitando a sugesto, Zuleika tirou do guarda-roupa um lindo conjunto azul-claro com passamanaria branca, bem como a capa que o protegeria do p da estrada, e o chapu combinando com o traje.
As duas voltaram para o quarto com as roupas e acessrios e tudo foi guardado cuidadosamente em um ba, excepto o conjunto para a viagem.
Por fim, Zuleika trocou-se e deitou-se. Embora estivesse emocionada demais por ser a vspera da viagem, dormiu, vencida pelo cansao.


Pela manh Zuleika vestiu o conjunto de viagem e desceu para o breakfast, achando que o pai no se lembraria daquele traje. Ele, porm, no s se lembrou do conjunto como da nica ocasio em que a esposa o havia usado.
Mas no fez comentrio algum. Estava emocionado porque a filha iria partir.
- Sentirei muito a sua falta, minha querida - disse quando Zuleika sentou-se  mesa. - Escreva-me apenas para dizer como est.
- Escreverei - a filha respondeu. - Por sugesto de Peter Seitz, escolhi para meu segundo ajudante-de-ordens e mensageiro algum que iria surpreender o senhor.
- Quem ?
- O conde von Hofmannstall.
De facto, o prncipe ficou muito surpreso.
- O conde! Por que voc convidou-o?
- Porque a minha inteno  impressionar, ou melhor, acordar o prncipe Majmir e seu entourage - Zuleika respondeu. - Alm disso, o conde  inteligente, jovem, tem excelentes idias e talvez consiga descobrir muito mais coisas do que eu serei capaz.
Por um instante o prncipe ficou em silncio, reflectindo.
Franz Von Hofmannstall era o filho caula do arquiduque, um dos mais distintos e importantes homens da ustria, e neto do imperador.
O arquiduque mandara o jovem Franz para Opava porque era grande amigo do prncipe Laszlo e tambm porque seus cavalos eram famosos. O rapaz, excelente cavaleiro, queria ser ainda melhor do que j era.
Na carta enviada ao prncipe o arquiduque havia escrito:

Uma mudana de ares far bem a Franz. Como no quero ver meu filho muito distante de mim, mando-o para Opava.
Enquanto ele permanecer em seu palcio, Laszlo, permita-lhe cavalgar diariamente. Espero que Franz volte para casa exmio cavaleiro como voc .
Tambm quero que meu filho conhea os trs principados austracos que ainda se mantm livres do jogo prussiano.
Recomendarei a Franz para no usar seu verdadeiro ttulo de nobreza, assim no chamar a ateno sobre si mesmo e poder andar  vontade entre o povo. Portanto, ele ser apenas o conde Franz von Hofmannstall.

O prncipe Laszlo recebera o conde de braos abertos. Agora estava um tanto preocupado porque a filha escolhera justamente Franz para seu ajudante-de-ordens.
- O conde ficar pouco tempo no palcio de Krnov, papai - disse Zuleika, adivinhando o pensamento do pai. - Ser bom para ele conhecer o principado e saber como esto as coisas l. Na primeira oportunidade ele voltar para Opava com notcias. 
- Entendo o seu raciocnio, filha. A escolha no podia ter sido melhor - louvou o prncipe. - O conde  um jovem muito inteligente e capaz.
- E monta bem. Encarreguei-o da minha escolta montada. Ele, Pieter Seitz e quatro outros saldados da cavalaria acompanharo o coche no qual viajarei.
O prncipe inclinou a cabea para trs e deu uma sonora risada.

- Sem dvida voc vai chegar a Krnov em grande estilo! Mas tem razo! Mostre a todos, desde o incio, que voc pertence  realeza e merece ser tratada como tal.
Eles tomaram o caf e comeram sem pressa, pois eram apenas trs horas de viagem at a fronteira, onde Anton Bauer estaria  espera da princesa Zuleika para o almoo. 
Terminando o breakfast Zuleika subiu para pegar o chapu e a capa. Depois despediu-se do pai.
- Adeus, querido papai. No fique aborrecido nem se preocupe comigo. Estou comeando a ver tudo isso como uma grande aventura - disse ela, tranquilizando o prncipe. - Eu s gostaria que o senhor pudesse me acompanhar. 
- Nada me deixaria mais contente. Escreva-me contando qual foi a reaco de todos em Krnov quando a virem chegar com toda a pompa. No duvido que voc os impressionar. - O prncipe sorrio para a filha.
-  essa a minha inteno - tornou Zuleika , sorrindo tambm.
Realmente, a princesa Zuleika iria viajar em grande estilo.  frente do palcio estavam toda a escolta de Sua Alteza Real e as duas carruagens. A maior, reservada  princesa e Pieter Seitz, era um coche muito luxuoso, puxado por quatro cavalos brancos bem emparelhados.
Marla e o valete do conde j estavam na outra carruagem com toda a bagagem. Em cada uma das boleias iam um cocheiro e um lacaio usando elegante libr.
O conde, montando no cavalo mais sensacional do prncipe, usava um uniforme de gala e um chapu com plumas. Subordinados a ele havia quatro soldados de cavalaria, elegantemente uniformizados.
Zuleika abraou e beijou o pai e subiu na carruagem. Pieter Seitz tambm ocupou seu assento do lado da princesa e os cavalos puseram-se em movimento. Assim que alcanaram a estrada, aumentaram a velocidade.
As estradas de todo o principado de Opava eram amplas e bem cuidadas, de modo a permitir que as viagens fossem rpidas e confortveis. Zuleika e Pieter Seitz comearam a conversar.
- Voc j est a par da nossa misso e tem idias de como ela  importante - observou Zuleika. Seria to bom se ao chegarmos a Krnov pudssemos constatar que nossos temores eram infundados e que o principado  progressista e bem administrado.
- Seria ptimo, realmente. Mas, a meu ver, a situao  bem pior do que imaginamos - Pieter Seitz opinou. - Tive oportunidade de falar com o emissrio de Sua Alteza Real e pude perceber que Krnov est praticamente sem governo. O novo primeiro-ministro, sim, acaba de assumir o cargo e tentar salvar o pas.
- Papai e eu conseguimos poucas informaes com Anton Bauer. Tive a impresso de que ele ficou receoso de falar o que no devia quando conversou com papai e mostrou-se evasivo. Quanto a mim, ele certamente imaginou que, por ser muito jovem, eu era ftil e no me interessava por assuntos srios!
Pieter Seitz riu.
- A maioria das pessoas no acredita que uma moa bonita como Vossa Alteza tambm possa ter um crebro brilhante.

- Bem, no quero que saibam em Krnov que tenho "crebro brilhante" como voc colocou. Ser muito mais vantajoso que todos pensem que sou tola e ftil - Zuleika apontou. - Dessa forma no tero receio de falar abertamente sobre o que se passa no principado. Quanto mais depressa ns descobrirmos o que acontece l, melhor.
- Foi o que o prncipe Laszlo me recomendou. Mas receio que no descobriremos nada to rapidamente quanto ele espera - contraps Pieter Seitz.
- Faremos o que estiver ao nosso alcance - Zuleika declarou. - Mas ainda no tive ocasio de lhe dizer que estou feliz por poder contar com a sua ajuda.
- Prometo no desapont-la, Alteza - Pieter assegurou.
A regio prxima  fronteira era agreste e a distncia alteavam-se as montanhas ricas em jazidas minerais, as quais contribuam em grande parte para a prosperidade de Opava.
A cadeia de montanhas estendia-se por todo o principado de Krnov e muito alm deste. Entretanto, pelo que Zuleika fora informada, o prncipe Majmir, ao contrrio dos vizinhos, no se interessava em explorar as riquezas do seu solo.
O prncipe Laszlo mandara vir da Europa peritos na prospeco de minerais para o trabalho nas minas. O resultado fora, alm do enriquecimento do principado, a gerao de emprego.
"Por que o prncipe Majmir  to interessante?", Zuleika questionou-se ao olhar para os picos das montanhas banhados pelo sol.
Ao transpor a fronteira ela achou que o principado de Krnov tinha as mesmas caractersticas de seu prprio pas, porm a aldeia por onde estavam passando era pobre e seus moradores estavam mal vestidos.
A hospedaria, como Anton Bauer dissera, ficava perto da fronteira. Ele estava aguardando a princesa e quando viu as duas carruagens e o conde  frente da escolta por Pieter Seitz.
- Voc est sozinho? - Zuleika perguntou, imprimindo na voz, deliberadamente, uma nota de espanto.
- Sim, Alteza. Pediram-me para vir receb-la e lev-la at o palcio. Eu no sabia que Vossa Alteza Real faria questo de uma escolta montada - ele respondeu um tanto constrangido.
Zuleika deu um sorriso
- Mas  claro! Meu pai jamais permitiria que eu viajasse desacompanhada de uma escolta montada.
Anton Bauer mostrou-se to desapontado que Zuleika mudou o tom de voz.
- No tem importncia. Minha escolta, comandada pelo conde Franz von Hofmannstall, me acompanhar at o palcio.
Eles iam entrar na hospedaria quando Zuleika viu no ptio uma carruagem puxada por dois cavalos.
- Tive uma idia! - exclamou. - Fizemos a viagem at aqui em tempo recorde porque minha carruagem, puxada por quatro cavalos,  muito veloz. Logicamente, chegarei ao palcio bem antes do que estou sendo esperada. Portanto, acho conveniente voc retornar para avisar o primeiro-ministro, o camareiro-mor e a princesa Adele que estarei no palcio uma hora antes do que estava previsto.
Notando o embarao e a indeciso de Anton Bauer, a princesa argumentou em tom persuasivo:
- Tenho certeza de que eles ficaro contrariados se eu chegar sem que estejam preparados para me receber.

Sempre atenta  expresso de Anton Bauer, Zuleika teve a impresso de que o camareiro-mor, e mesmo o primeiro-ministro, pouca importncia estavam dando  chegada de uma jovem que seria a dama de companhia da princesa Adele.
Certamente os dois achavam que era mais do que suficiente terem mandado o jovem Anton Bauer at  fronteira com uma carruagem para receb-la.
Disposta a causar impacto, Zuleika prosseguiu:
- Voc deve dizer aos cavalheiros que o mandaram receber-me, que meus dois ajudantes-de-ordens so Pieter Seitz, o qual voc conheceu quando esteve em Opava, e o conde von Hofmannstall. A propsito, o code  o filho mais novo de um aristocrata importante do palcio de Viena. Por certo Sua Alteza Real ter muito prazer em conhec-lo.
No interior da hospedaria os recm-chegados forram recebidos pelo proprietrio, que se curvou diante da princesa quase at ao cho.
- O almoo est pronto e ser servido numa sala privativa - avisou. - Espero que Vossa Alteza aprecie os pratos que preparamos.
- Certamente. Seremos trs  mesa: meus ajudantes-de-ordens e eu - informou Zuleika. - Providencie tambm o almoo para minha criada pessoal, os cavalarianos que compem a minha escolta, os cocheiros e os lacaios.
- Todos sero atendidos prontamente, Alteza - tornou o homem, curvando-se ainda mais.
O proprietrio conduziu Zuleika e os dois ajudantes-de-ordens at uma sala e quando se afastou, Anton Bauer conversou com ele em voz baixa.
Zuleika teve certeza de que o rapaz lhe dizia que as refeies extras seriam pagas posteriormente, pois ele no tinha dinheiro consigo.
"Ningum no palcio jamais imaginou que eu iria chegar com tal comitiva. Espero que todos fiquem to admirados como Anton Bauer ficou ao me ver chegando", Zuleika reflectiu, satisfeita.
Os ajudantes-de-ordens esperaram a princesa sentar-se e ento ocuparam seus lugares  mesa. Zuleika notou que eles se divertiam com a situao. De facto, Pieter Seitz comentou com um sorriso:
- O pobre Bauer vai passar fome, pois foi despedido sem almoo.
Uma criada serviu-os. A refeio nada teve de especial e nenhum tipo de vinho lhes foi oferecido.
- Papai nunca trataria seus visitantes dessa forma - Zuleika criticou. - A falta no  de Bauer, naturalmente, mas o primeiro-ministro deveria receber melhor uma princesa.
- Ouvi dizer que no palcio de Krnov no se d ao protocolo a ateno de antigamente - observou Pieter Seitz. - Depois do que Anton Bauer presenciou e do que Vossa Alteza disse a ele, acredito que haver nos degraus do palcio uma comisso para receb-la.
O conde aproveitou a ocasio e contou passagens sobre a diferena de tratamento que recebia quando se apresentava como o neto do imperador ou filho do arquiduque e quando se fazia passar por um homem comum.
- Assim que terminei a universidade viajei pelo mundo durante meses e nunca usei meu ttulo, s para ver como viviam as pessoas que no tinham privilgios como eu. Foi uma experincia um tanto desconfortvel, porm gratificante.

- Admiro-o por ter feito isso - a princesa declarou. - Tal experincia lhe ser til se voc quiser seguir a carreira diplomtica.
- A carreira diplomtica me atrai, mas nunca serei um diplomata. Devo, sim, administrar as inmeras propriedades e as grandes extenses de terra que meu pai possui por toda a ustria.
O modo como o conde falou revelou a Zuleika que ele gostava de exercer sua autoridade sobre as pessoas e de ser obedecido. Essa tendncia para liderana seria muito til a ela; por outro lado, a estada em Krnov iria ser de grande ajuda para ele prprio no futuro.
Para haver tempo suficiente de Anton Bauer chegar ao palcio, Zuleika no teve pressa de terminar a refeio e prosseguir viagem.
Por fim eles partiram. No tardaram a alcanar uma regio linda, com vegetao luxuriante, porm as cidades e aldeias pelas quais passavam no pareciam prsperas.
Mais uma vez Zuleika reflectiu que o prncipe Majmir no cuidava do seu principado como devia.
Depois de quase duas horas de viagem eles alcanaram a capital onde o palcio estava situado. Os habitantes olharam atnitos para a carruagem da princesa e a escolta montada.
Construdo inteiramente de pedras brancas, o majestoso palcio ficava no alto de uma colina e podia ser visto de qualquer parte da cidade onde estivesse.
Quando a elegante escolta chegou  frente dos portes, as sentinelas tomaram posio de sentido.
Os jardins do palcio estavam floridos, porm Zuleika disse a si mesma que no se comparavam aos do palcio de Opava.
Apesar de ter-se arrumado na hospedaria, a princesa olhou-se ao espelho e ajeitou os cabelos assim que a carruagem comeou a subir pelo caminho de pedras de acesso ao palcio.
Finalmente os cavalos foram refreados  frente dos degraus de mrmore. Anton Bauer esperava por Sua Alteza Real. Atrs dele, havia trs pessoas.
- Ele fez o que pedi - Zuleika sussurrou para Pieter Seitz. - Tenho certeza de que os dois cavalheiros so o primeiro-ministro e camareiro-mor. A mocinha  a princesa Adele.
- S podem ser - anuiu o ajudante-de-ordens. - Vossa Alteza foi muito habilidosa em conseguir uma recepo  sua altura.
Nesse instante a porta da carruagem foi aberta por um lacaio do palcio trajando a libr real.
Zuleika desceu e foi at  princesa Adele. Achou-a muito bonita mas surpreendeu-se ao notar que ela parecia amedrontada.
De facto, o camareiro-mor precisara colocar a mo nas costas da mocinha para que ela se aproximasse de Zuleika.
-  um grande prazer conhecer Vossa Alteza Real - disse Zuleika depois de beijar as faces de Adele. 
- Bem-vinda a... Krnov - murmurou a princesa. -  uma... grande honra... t-la connosco.
- Estou muito feliz por ter vindo. Espero que passemos bons momentos juntas - Zuleika falou alegremente.
Virando-se para o primeiro-ministro ela estendeu a mo sobre a qual ele curvou-se. Em seguida fez-lhe um discurso de boas-vindas.

Ento Zuleika voltou-se para o camareiro-mor que tambm a saudou e perguntou pouco depois de modo um tanto incisivo:
- Vossa Alteza Real veio acompanhada de grande escolta. Os cavalarianos voltaro para Opava esta noite?
- Oh, isso  impossvel! - Zuleika exclamou com uma expresso horrorizada. - Ser exigir demais dos cavalos! Espero que o senhor lhes permita passar a noite no palcio. Mas quero, antes de mais nada, apresentar  princesa Adele e, claro, aos senhores, o conde Franz von Hofmannstall que aceitou, gentilmente, acompanhar-me como meu ajudante-de-ordens.
O primeiro-ministro e o camareiro-mor curvaram-se respeitosos diante do conde. Sem dvida conheciam a famlia Hofmannstall, muito importante na histria da ustria.
Entrando no hall do palcio Zuleika achou-o majestoso, porm mal cuidado.
- Vossa Alteza gostaria de subir para seu quarto antes do ch? - indagou o camareiro-mor.
- Ah, sim, meu quarto. A propsito, vi a planta do palcio e imagino que me foi reservado um dos aposentos principais - replicou Zuleika sem rodeios.
O camareiro-mor no disfarou seu espanto. Por certo nem lhe passara pela cabea oferecer  visitante um daqueles belos aposentos.
- O senhor sabe a que aposentos me refiro. Tenho predileco por rosas e ficarei desapontada se no puder ocupar a Sute das Rosas.
Nada havia que o camareiro-mor pudesse fazer seno oferecer  visitante os aposentos de seu agrado. A contragosto ele murmurou que a levaria  Sute das Rosas.
Cada vez mais contente de ver que tudo estava acontecendo conforme planeara, Zuleika sorriu para a princesa Adele. Agora s faltava transferi-la do segundo andar para uma das lindas sutes. Disse ento ao camareiro-mor:
- Ainda no sei onde ficam os aposentos de Sua Alteza Real, mas ser conveniente que ela e eu fiquemos uma perto da outra. De acordo com a planta do palcio, a Sute dos Lrios, por ser vizinha  das Rosas, ser perfeita para a princesa Adele.
-  verdade. Quero ir para a Sute dos Lrios - a princesa Adele manifestou-se. - At agora me convenceram a ficar no segundo andar com minha governanta e tambm para receber aulas com meus preceptores. Mas minhas aulas terminaram e a Sute dos Lrios  linda!
Evidentemente surpreso com aquela reaco, o camareiro-mor concordou secamente:
- Tudo ser providenciado para a mudana, Alteza.
- Maravilhoso! - Zuleika exclamou. - Poderemos conversar, ler ou tocar piano sempre que estivermos desocupadas. Imagino que como eu, voc goste de festas, bailes e de receber seus amigos.
Desta vez o rosto do camareiro-mor transformou-se, tal seu assombro. Mas foi o primeiro-ministro quem perguntou:
- Vossa Alteza pretende oferecer festas no palcio?
- Bem, pretendo apenas orientar a princesa Adele. Ela oferecer as festas - Zuleika assinalou. - Pelo que entendi, vim para este palcio com a finalidade de preparar a princesa Adele, herdeira do trono, para assumir suas obrigaes reais.
- Sim, sim, naturalmente - anuiu o primeiro-ministro. - Fiz o convite a Vossa Alteza para ser a dama de companhia da princesa Adele com essa finalidade.

- Eu gostaria muito de falar com o senhor, amanh, sobre os meus deveres, entre outras coisas. Por favor, marque a hora que lhe for conveniente. - Zuleika voltou-se para o camareiro-mor e pediu-lhe: - Agora eu gostaria que o senhor me mostrasse onde ficam os meus aposentos. Quero tirar o chapu e lavar-me.
Sem esperar o assentimento, ela dirigiu-se para a escada e comeou a subir os degraus. O camareiro-mor seguiu-a. 
No primeiro patamar estava a governanta usando o tradicional vestido de seda preta e trazendo  cintura a grossa corrente de prata na extremidade do qual estava o molho de chaves. O camareiro-mor apresentou-a:
- Esta  frau Leuger que atender Vossa Alteza.
A governanta fez uma mesura e Zuleika estendeu-lhe a mo. Disse em seguida:
-  um prazer estar neste palcio, frau Leuger.  grande a minha ansiedade para ver a Sute das Rosas, a qual, me disseram,  linda.
Tambm a governanta ficou admirada e o camareiro-mor apressou-se em dizer:
- Sua Alteza ocupar a Sute das Rosas e a princesa Adele a Sute dos Lrios, dessa forma ambas ficaro bem perto uma da outra.
- Isso eu no esperava, milorde - replicou a governanta. - Mas no h problema algum. Esses aposentos esto desocupados. Vou ordenar que sejam preparados para Suas Altezas.
O camareiro-mor no se dignou a responder e a governanta conduziu-os pelo corredor.
As duas sutes encantaram Zuleika, porm ela notou que no eram usadas h muito tempo. O cheiro tambm indicava que aqueles cmodos no eram arejados.
Em cada uma das sutes a governanta foi de cmodo em cmodo afastando as cortinas e abrindo as janelas.
- Ambas as sutes so encantadoras! - Zuleika falou com entusiasmo. - Agora eu gostaria que a minha criada pessoal subisse imediatamente para ajudar-me a refazer o penteado.
O camareiro-mor saiu do quarto seguido da governanta. Ouviu-os discutindo sobre a mudana dos aposentos, Zuleika esboou um sorriso.
A princesa Adele, que tambm havia subido para ver as sutes mas ficara quietinha a um canto, aproximou-se de Zuleika e agradeceu-lhe.
- Muito obrigada por sugerir que eu devia ocupar a Sute dos Lrios. Toda a vez que eu falo em me mudar para um dos aposentos deste andar, eles alegam que  mais prtico eu ficar perto da sala de aula. Mas j faz algum tempo que meus estudos terminaram.
- Aqueles aposentos infantis sero fechados e esquecidos! - Zuleika sorriu para a princesa. - Voc j completou dezoito anos e  uma pessoa muito importante. Tanto, que fui convidada para ser a sua dama de companhia. Vamos nos divertir, mesmo que todos esses antiquados, conservadores, pomposos e impertinentes assessores de seu pai se escandalizem com o nosso comportamento.
A princesa bateu palmas.
- Voc acha que poderemos oferecer uma festa no palcio?

- Naturalmente! - Zuleika afirmou. - No ser apenas uma e sim muitas festas. Mas em primeiro lugar voc precisa me apresentar a seus amigos.
- No tenho amigos. Papai nunca se importou comigo; estive sempre aos cuidados de uma governanta - a princesa queixou-se.
- Tudo isso pertence ao passado. Vamos transformar este palcio! Entretanto, se quisermos ser bem-sucedidas, devemos nos unir e voc, como dona da casa, ter de me apoiar.
-  claro que a apoiarei. Na verdade, nunca tive coragem de fazer prevalecer a minha vontade. Mas agora, com voc do meu lado, sinto-me confiante. Obrigada por ter vindo.
Zuleika havia tirado o chapu e se questionava onde Marla poderia estar para demorar-se tanto, quando a criada apareceu, indignada.
- Vossa Alteza no vai acreditar quando eu lhe disser como  o quarto que eles lhe haviam reservado! - desabafou. - Alm de desconfortvel  to pequeno que h lugar para pr metade dos seus vestidos.
- Foi o que imaginei. Mas aqui estou, na Sute das Rosas! - Zuleika voltou-se para a princesa e apresentou-lhe a criada.
- Esta  Marla, minha criada pessoal que h seis anos cuida de mim. Ela tem muita prtica e saber orientar sua criada pessoal, Adele, de forma que ela a deixar ainda mais bonita do que j .
- Eu no tenho criada pessoal - a princesa revelou
- No?! - Zuleika admirou-se. - Pois ter uma e Marla ir orient-la. Voc tambm precisa de roupas novas.
- Roupas novas?!
- Isso mesmo! - Zuleika sentou-se diante do espelho para Marla retocar-lhe o penteado. - Espero que voc me diga quais so as melhores e mais caras lojas da cidade. Vamos comprar vestidos de baile, trajes para o dia, para a tarde e para montar. Um enxoval completo. 
Adele deu um pulo de alegria.
- Vou adorar ter roupas novas e de acordo com a moda. Detesto os vestidos feitos pela costureira do palcio. Sabe que eu no podia escolher os modelos do meu gosto?
- Pois agora ter os trajes mais lindos que houver e que mais lhe agradarem. Mas vamos descer para o ch. - Zuleika deu a mo a Adele e ambas saram do quarto rindo, felizes.
No salo azul o primeiro-ministro e o camareiro-mor esperavam pelas princesas.
- Vossa Alteza gostaria de servir o ch? - convidou o camareiro-mor.
- Com prazer - Zuleika respondeu. - Vejo que o chef preparou algumas coisas gostosas, as quais so bem-vindas, j que o almoo foi to inspido.
O primeiro-ministro e o camareiro-mor se entreolharam e o ltimo falou, ligeiramente embaraado.
- Nessas pequenas hospedarias no h muito o que escolher. Anton Bauer poderia ter levado algum prato especial preparado pelo nosso chef. A falta de lembrana foi minha.
- Tambm no nos foi servido champanhe. Depois de uma longa viagem nada  to refrescante quanto um champanhe gelado - Zuleika acrescentou, decidida a no perdoar a falta de ateno dos dois cavalheiros.
- Bem, s posso prometer que Vossa Alteza ter champanhe ao jantar - disse o camareiro-mor.
Zuleika dirigiu-lhe um sorriso encantador, em seguida perguntou:

- Seria possvel eu ter uma audincia com o prncipe ou devo esperar para falar-lhe durante o jantar?
Fez-se um silncio desconfortvel.
Zuleika no teve dvidas de que nem havia passado pela mente do camareiro-mor que ela iria sentar-se  mesa com o prncipe.
Por fim, ele observou:
- A princesa Adele costuma jantar sozinha em seus aposentos.
- Sozinha?! - Zuleika repetiu, surpresa. - Sua Alteza, certamente, j tem idade para sentar-se  mesa com o pai e com as pessoas que estiverem hospedadas no palcio. Por falar nisso, ser interessante haver aqui bailes, festas e recepes. Terei prazer de organizar tudo, desde que os senhores providenciem a lista de nomes de pessoas jovens que possam ser convidadas.
Se uma bomba explodisse aos ps dos dois cavalheiros eles no teriam ficado to atnitos. Zuleika prosseguiu:
- Vejo que ambos esto surpresos. Mas no h razo para esse espanto. A princesa Adele  jovem e precisa ter vida social. Por outro lado, como herdeira do trono, ela deve preparar-se para o papel que ser seu um dia. Tenho certeza de que o primeiro-ministro se encarregar de arranjar para a princesa compromissos pblicos importantes.
- Anseio por fazer tudo isso que a princesa Zuleika est dizendo - a princesa Adele declarou. - Eu no suportava mais ficar nos meus aposentos, s saindo dali quando algum me levava para cavalgar.
- De hoje em diante voc no depender de ningum para fazer um passeio a cavalo. Voc dar ordens e dir aonde e quando quer ir. Adora cavalgar e poderemos montar cada dia um cavalo diferente. Se quisermos companhia, o conde von Hofmannstall ter prazer de cavalgar connosco. Ele  excelente cavaleiro.
Achando que a princesa Zuleika estava indo depressa demais, o camareiro-mor fez uma objeco:
- Lamento, Alteza, mas nada pode ser decidido sem a aprovao de Sua Alteza Real, o prncipe Majmir. Quando, por sugesto do primeiro-ministro, o prncipe concordou que a filha tivesse uma dama de companhia, ele, certamente, no imaginou que fosse ocorrer tantas mudanas no palcio e na vida da princesa Adele.
- Se vocs no me querem aqui, posso voltar para Opava amanh mesmo - Zuleika redarguiu. - Asseguro-lhes que deixei uma srie de obrigaes para trs e meu pai sente muito a minha falta.
- Por favor, no  isso - acudiu o primeiro-ministro. - Estamos felizes det-la connosco. Pessoalmente, concordo com o que Vossa Alteza exps. De facto, a princesa tem vivido muito reclusa, agora deve ir a festas e ter amigos.
- Vejo que o senhor me compreende - Zuleika alegrou-se. - Como eu j disse  princesa, precisamos sair para fazer compras.
- Compras! - exclamou o camareiro-mor. - Para qu?
- Toda debutante precisa de um enxoval - alegou Zuleika.
- Correcto - aprovou o primeiro-ministro. - Confio no seu gosto, Alteza. Sei que escolher trajes adequados para a princesa Adele.
- Tambm quero escolher minhas roupas - a princesa interps. - Ser maravilhoso poder opinar sobre o que eu mesma irei vestir.

- Claro. Voc ter o que for do seu agrado - Zuleika concordou. - Se aqui no houver bons artigos, mandar busc-los em Viena. Tenho vestidos lindos comprados em Viena.
Olhando para o camareiro-mor Zuleika teve vontade de rir. O pobre homem no conseguia esconder suas exasperao ao ouvir aquela conversa.
Era evidente que ele havia imaginado que a dama de companhia da princesa seria tmida, calada, sem vontade prpria e que se sentiria honrada de estar no palcio, num quarto acanhado e sem conforto.
Zuleika serviu mais uma xcara de ch ao primeiro-ministro e percebeu que ele se divertia intimamente ao notar a consternao do austero camareiro-mor.
Este terminou o ch e ficou de p.
- Se me der licena, Alteza, vou informar Sua Alteza Real de sua chegada - disse ele a Zuleika.
- Por favor, diga a Sua Alteza Real que estou ansiosa para conhec-lo - Zuleika pediu - Compreendo que estava muito ocupado para nos receber, mas assim que ele tiver tempo livre eu gostaria de falar-lhe sobre diversos assuntos.
Assim que o camareiro-mor deixou o salo, o primeiro-ministro disse:
- Est de parabns, Alteza! Nunca imaginei que Vossa Alteza comeasse a afastar as teias de aranha logo  sua chegada. Agradeo-lhe do fundo do corao por ter vindo a Krnov.
- Precisarei da sua ajuda - disse Zuleika.
- Bastar pedir e farei tudo ao meu alcance para ajud-la, com o maior prazer.
A porta abriu-se antes de Zuleika ter tempo de responder. Pieter Seitz e o conde entraram no salo.
- Disseram-nos que Vossa Alteza estava aqui. Viemos apenas tranquiliz-la sobre os cavalos; todos esto confortavelmente instalados e foram bem tratados - informou Pieter Seitz.
- Obrigada. Vou servir-lhes uma xcara de ch.
Os dois sentaram-se e o primeiro-ministro perguntou ao conde:
- Como est seu pai? Sou seu grande admirador. Espero conseguir persuadi-lo a fazer-nos uma visita.
- Certamente ele receber seu convite com prazer - adiantou o conde. - Quanto a mim,  a primeira vez que venho a Krnov e espero conhecer muitas pessoas. Gosto de fazer novas amizades.
- Vou apresent-lo a pessoas interessantes e serei cuidadoso na seleco. Quero lembr-lo, porm, que fui nomeado para o cargo recentemente e ainda ando com muita cautela, por assim dizer. Estou empenhado em fazer as reformas mais urgentes, mas esta  uma tarefa rdua.
- Compreendo. As reformas e inovaes so sempre uma questo delicada. H inevitavelmente aqueles acomodados que so contra novas idias, novos interesses, e entravam o nosso trabalho. Tive o mesmo problema no ano anterior com os empregados e assessores de papai. Precisei usar muita diplomacia, mas consegui introduzir novos mtodos e novas tcnicas nas propriedades - mencionou o conde.
- Se conseguiu, est de parabns! - louvou o primeiro-ministro. - O pior  quando h necessidade de renovar. Sofremos presses de todos os lados. Mas ns sabemos que no se deve pr vinho novo em odres velhos.
Eles riram.
O conde perguntou a Zuleika:
- Qual  o programa para esta noite, Alteza? 

-  o que estou querendo saber - ela respondeu. - Mesmo estando com dezoito anos e sendo herdeira do trono, a princesa Adele no tem permisso de sentar-se  mesa com o pai. Como exigi que Sua Alteza Real faa valer seus direitos, est havendo uma revoluo no palcio.
Houve novas risadas.
- O que Vossa Alteza acha de tudo isto? - o conde indagou  princesa Adele.
- Para mim  a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer. Estou vibrando de alegria! - tornou a princesa, empolgada. - Vocs caram do cu e lhes sou imensamente grata por terem vindo.
- No tardaremos a fazer grandes mudanas no palcio - prometeu o conde. - Acaba de me ocorrer que se houver algum que saiba tocar piano, podemos danar esta noite.
- Por que no? - Zuleika aceitou a idia. - Deve haver um salo de msica no palcio.
- Claro que h - assegurou a princesa Adele. - H tambm um salo de baile, mas  enorme e est sempre fechado.
- Ser aberto em breve - assegurou o conde. - Mas se quisermos danar, precisamos de um pianista.
Neste instante Anton Bauer entrou no salo e o conde voltou-se para ele.
- Oh, acaba de chegar o homem que resolver o problema. Voc mora aqui e vai arranjar-nos algum para tocar piano. Se souber tambm de um violinista, melhor ainda. Queremos danar.
- Danar?! - repetiu Anton Bauer, admirado, como se tivesse ouvido algo extraordinrio.
- Foi o que me ocorreu - disse o conde. - O que mais h para nos divertir  noite neste palcio?
No houve resposta  pergunta, pois o camareiro-mor entrou no salo. Todos os olhares fixaram-se nele, indagativos. Ele dirigiu-se a Zuleika:
- Falei com Sua Alteza Real. Ele ficar encantado se Vossa Alteza jantar com ele esta noite, s oito.
- E meus acompanhantes? - Zuleika inquiriu.
- Sua Alteza Real espera que a filha, o conde Franz von Hofmannstall e herr Pieter Seitz acompanhem Vossa Alteza - completou o camareiro-mor.
A princesa Adele, que a cada instante tornava-se mais descontrada, bateu palmas e exclamou:
- Um jantar com convidados! Que bom!
- No h ajudantes-de-ordens no palcio? - Zuleika quis saber. - Eles tambm poderiam sentar-se  mesa.
- Normalmente eles jantam com Sua Alteza Real mas como j so idosos, preferem jantar em seus aposentos esta noite.
No foi difcil para Zuleika deduzir que o prncipe, por estar cercado de pessoas idosas e aborrecidas, tornara-se aptico.
"Em poucas horas j derrubei algumas barreiras. Serei vencedora nesta corrida de obstculos", ela pensou com determinao.

CAPTULO III

Aps o ch Zuleika e a princesa Adele subiram e na Sute das Rosas encontraram Marla que j desfizera a bagagem, guardara as roupas e estava preparando o banho de Zuleika.
- Nem acredito que passarei a ocupar estes aposentos to lindos e amplos onde entrei to poucas vezes - disse a princesa, eufrica.
- Tenha sempre em mente que este palcio  seu. Deixaremos nossas sutes ainda mais lindas enfeitando-as com flores. Tambm pedirei para as arrumadeiras colocarem mais flores em todos os sales.
- Eu sabia que Vossa Alteza iria sentir falta de flores - Marla observou.
- Venha comigo, Zuleika. Vamos ver como ficou a Sute dos Lrios depois de arrumada - convidou a princesa Adele.
Em vez de irem pelo corredor elas passaram por uma porta de comunicao entre as duas sutes, atravessaram a saleta de estar e chegaram ao quarto de Adele.
A grande cama dourada com colunas e dossel entalhados representando lrios estava arrumada e coberta com uma colcha de renda branca.
A governanta as aguardava para saber se aprovavam o que havia sido feito nos aposentos e a princesa Adele agradeceu-lhe entusiasticamente:
- Meu quarto est lindo! Obrigada, frau Leuger! Obrigada! Nem acredito que me mudei para este andar e esta sute encantadora.
- Foi muito gentil de sua parte ter deixado os cmodos prontos em to pouco tempo. Obrigada - Foi a vez de Zuleika agradecer. - Amanh a princesa e eu queremos ver muitas flores em nossos aposentos. Sinto-me perdida sem elas.
- Providenciei as flores, Alteza - disse frau Leuger.
Antes de Zuleika voltar para seu quarto, a princesa perguntou-lhe:
- Que roupa devo usar? Francamente, no tenho um traje de noite sequer. Terei de escolher um dos vestidos que eu usava  tarde para tomar ch com minha governanta.
- Amanh iremos fazer compras e para esta noite posso emprestar-lhe um dos meus vestidos. Dessa forma voc no se sentir constrangida. Somos quase do mesmo tamanho.
- Voc me emprestar um de seus vestidos elegantes? - surpreendeu-se a princesa.
- Venha comigo e escolha o traje que for do seu agrado - disse Zuleika puxando a princesa pela mo.
J estavam ambas  porta quando Zuleika lembrou-se de dizer  governanta.
- Voltaremos logo. Como a princesa ainda no tem sua criada pessoal, por favor, ajude-a vestir-se, frau Leuger.
No outro quarto, Marla ficou a par do que as princesas queriam e tirou dois vestidos do guarda-roupa. Zuleika deixou a escolha a cargo da princesa Adele e esta preferiu o mais simples e exultou.
-  lindssimo! Nunca tive nada igual!

- Estou contente porque voc gostou do vestido. V para seu quarto e quando j estiver pronta, volte aqui para Marla pente-la. Agora que est crescida, Adele, voc ter de preocupar-se com seu penteado, entre outras coisas. Espero que haja um bom cabeleireiro na cidade.
- H, sim, e ele vem ocasionalmente ao palcio para atender a algumas das hspedes - Adele informou.
- Mandaremos cham-lo amanh - Zuleika declarou. - Um profissional saber dizer que tipo de penteado ficar bem em voc.
As duas jovens eram completamente diferentes. A princesa Adele, com ascendentes russos pelo lado materno, tinha cabelos e olhos negros, mas a pele era alva e os lbios bem rosados.
Zuleika herdara da me os cabelos dourados, os olhos azuis e a pele rsea, caractersticas sempre associadas s beldades inglesas. Mas o que tornava Zuleika to encantadora eram as centelhas em seus olhos, sua vivacidade e a joie de vivre que pareciam irradiar de sua pessoa como um raio de sol.
O tempo estava passando e Zuleika correu para a banheira que estava sobre um tapete,  frente da lareira.
Meia hora depois estava pronta usando um vestido cor-de-rosa e um colar de prolas. Sua preocupao era deixar o prncipe muito bem impressionado.
Marla terminara de fazer-lhe um gracioso penteado quando a princesa Adele entrou no quarto, radiante.
- Olhem para mim! Vejam como estou! No me acham elegante?
Aquela nem parecia a mesma garota encabulada, tmida e mal vestida a quem Zuleika fora apresentada ao chegar.
- Voc est adorvel - Zuleika falou com sinceridade. - E  assim que voc ir apresentar-se a partir deste momento.
- Duvido - Adele murmurou, inclinando a cabea para o lado. - Talvez no encontremos aqui em Krnov vestidos como este.
- Se no encontrarmos, mandaremos vir de Viena os mais belos trajes que houver. Ento voc se transformar numa princesa de contos de fada que deslumbrar Krnov.
As duas princesas desceram a escadaria de mos dadas e o ajudante-de-ordens, bem idoso, que as aguardava no hall, acompanhou-as at os aposentos privativos do prncipe.
Os trs percorreram vrios corredores de teto muito alto at chegarem ao fim do palcio. O velho ajudante-de-ordens abriu uma porta e indicou que as jovens deviam entrar.
Na sala no havia sinal do prncipe; ali estavam apenas Pieter Seitz e o conde.
- Eu j comeava imaginar que as havia perdido quando vocs surgem como dois anjos do cu - disse o conde efusivamente.
- No  mau sermos comparadas a anjos, mas a princesa e eu espervamos ouvir outro tipo de elogio - Zuleika replicou.
- Isso foi s a introduo - explicou o conde, rindo. - Devo agora dizer que estou orgulhoso de ter ao jantar a companhia de duas lindas e jovens ladies.
Para alegria de Zuleika, a princesa parecia maravilhada e olhava para o conde com os olhos muito abertos. Certamente esse era o primeiro elogio que um cavalheiro lhe fazia.
Pieter Seitz foi muito discreto. Beijou a mo das princesas e disse apenas:
- Sinto-me honrado por estar aqui esta noite. Acredito que este jantar ser o incio de um novo captulo na histria de Krnov e a presena de duas jovens princesas torna-o mais memorvel.
Um outro ajudante-de-ordens, ainda mais idoso do que o anterior, anunciou:
- Sua Alteza Real est pronto para receber seus hspedes.

Do outro lado do corredor, numa sala ampla, estava o prncipe Majmir, de p, usando um traje de noite que no lhe assentava bem. Seus cabelos, que comeavam a ficar grisalhos, pareciam no ter sido penteados.
Embora no tivesse idealizado como seria o prncipe, Zuleika surpreendeu-se ao ver aquele homem decrpito. Aproximou-se e ao fazer uma mesura, teve certeza de que havia algo errado, no apenas com ele, mas tambm naquele palcio.
- Seja bem-vinda - a Krnov - disse o prncipe, depois de curvar-se. - Espero que Vossa Alteza sinta-se bem entre ns.
- Obrigada - Zuleika respondeu. - Foi muito amvel de sua parte convidar-me para vir a este palcio.  uma honra ser sua hspede.
Em seguida ela apresentou o conde. Atenta  reaco do prncipe, Zuleika percebeu que ele ficou muito impressionado com o facto de um aristocrata to distinto e importante fazer parte da comitiva da princesa.
Para com Pieter Seitz o prncipe mostrou-se condescendente, como se no o considerasse digno de ateno.
Anton Bauer entrou na sala e, por sua agitao, Zuleika deduziu que ele estivera ocupado at ao momento com os preparativos para o jantar.
Pouco depois todos se dirigiram para a sala de jantar privativa do prncipe, vizinha da sala de estar, onde eles foram recebidos.
Foi grande a decepo de Zuleika ao ver que no havia flores na mesa e que a prataria precisava de polimento.
O prncipe convidou a visitante para sentar-se  sua direita e a filha  sua esquerda. Do lado da princesa Adele sentou-se o conde, e Pieter Seitz ocupou o lugar do lado de Zuleika, vindo Anton Bauer logo a seguir.
Os pratos servidos embora no fossem ruins, no se podia dizer que eram deliciosos. Felizmente, o champanhe era de excelente safra e ptima qualidade.
O que chamou a ateno de Zuleika foi que o prncipe no tomou champanhe e sim outra bebida da qual parecia gostar muito, pois esvaziava o copo depressa e o criado o enchia imediatamente.
Durante todo o jantar o prncipe falou muito pouco, mas o conde animou a refeio contando passagens interessantes sobre suas viagens pelo mundo e sobre corridas que organizava no seu pas.
A princesa Adele ouviu-o encantada e o tempo todo olhou para ele com admirao.
"Esta deve ser a primeira vez que Adele tem permisso de jantar na companhia de um belo rapaz", Zuleika pensou ao notar o interesse da princesa pelo conde. "Ainda bem que o temos connosco; ele impedir que as nossas noites neste palcio sombrio sejam deprimentes."
Pieter Seitz, sempre to discreto e calado, revelou-se um grande contador de casos divertidos, provocando o riso de todos, excepto do prncipe que parecia ter o pensa mento distante dali.
Os pratos se seguiram e quando a sobremesa foi servida Zuleika percebeu que o anfitrio tinha os olhos fechados. O conde e Anton Bauer levantaram-se depressa, ajudaram o prncipe a ficar de p e praticamente o carregaram para o quarto.

- J me disseram que isto acontece todas as noites - Pieter Seitz revelou a Zuleika em voz baixa.
- Voc quer dizer que ele est bbado? - ela perguntou sussurrando.
- Est. Ele  um alcolatra. Ser mais conveniente no jantarmos com Sua Alteza Real - Pieter Seitz aconselhou.
- Eu no fazia idia que ele bebia!
Minutos depois o conde e Anton Bauer estavam de volta e sentaram-se  mesa como se nada tivesse acontecido.
Terminada a sobremesa, Zuleika perguntou a Anton Bauer.- Aqui em Krnov as ladies saem da sala de jantar e deixam os cavalheiros  mesa apreciando seu vinho do Porto?
- No temos esse costume - Anton Bauer respondeu.
- Eu, pessoalmente, no gosto de vinho do Porto mas podemos ir para uma outra sala onde nos serviro caf e licores - sugeriu o conde.
- Tambm no temos esse hbito, mas providenciarei para que sejam servidos - disse Anton Bauer. - A princesa Adele os levar at uma sala onde podero ficar mais  vontade.
- Voc se refere  sala de estar que me mostrou ontem? - quis saber a princesa.
Anton Bauer assentiu e Adele levou os hspedes para uma sala decorada com extremo bom gosto que ficava em outra parte do palcio.
O contraste dessa sala com aquela ocupada pelo prncipe, onde haviam estado, era espantoso. As telas das paredes eram obras-primas e tinham, como os espelhos de cristal, preciosas molduras douradas.
Sobre as peas do mobilirio, todas elas primorosamente entalhadas e com detalhes em ouro, viam-se objectos de arte de valor inestimvel.
- Todos os cmodos desta ala foram decorados pela me da princesa Adele, pouco antes de ela morrer. O prncipe prefere que eles fiquem fechados porque fazem-no lembrar da esposa - esclareceu Anton Bauer tendo notado o olhar indagativo de Zuleika.- H uma sala de jantar nesta ala? - Zuleika indagou.
- Sim, claro. H tambm uma sala de msica, uma biblioteca e a sala de leitura. Todos os cmodos so luxuosos e decorados com muito bom gosto.
- Irei  biblioteca na primeira oportunidade. Estou interessada em encontrar um livro sobre a histria de Krnov.
- Temos vrios livros sobre a nossa histria. Todos eles esto s ordens de Vossa Alteza - ofereceu Anton Bauer.
- Eu gostaria de ver a sala de msica, mas acredito que seja muito tarde para danarmos esta noite - aparteou o conde. - Porm, insisto em termos um baile amanh. Fiquei sabendo que um dos oficiais  excelente pianista e que h na cidade uma pequena orquestra. Estou pensando em contrat-la.
- Voc no perde tempo - Zuleika observou, rindo
- O tempo no deve ser desperdiado.
Ao dizer isso o conde olhou para Zuleika de modo significativo e ela entendeu que ele se referia ao que teriam de descobrir sobre o perigo que Krnov corria de perder sua independncia.
Para distra-los Anton Bauer sugeriu que eles jogassem cartas. A sugesto foi aceite mas foram escolhidos jogos infantis to ridculos que todos acabaram rindo e provocando uns aos outros.
Finalmente, s onze, Zuleika achou que j era hora de irem para a cama.

- Amanh teremos um dia agitado - alegou, pondo-se de p.
- O que Vossa Alteza deseja que seja providenciado para amanh? - perguntou Anton Bauer enquanto a princesa Adele conversava com o conde.
- A primeira coisa, e a mais importante no momento,  comprar roupas para a princesa - exps Zuleika. - Ela s tem trajes horrorosos. Para esta noite emprestei-lhe o vestido que est usando.
- Foi o que pensei ao v-la to elegante - Anton Bauer comentou. - Vou providenciar uma carruagem para ambas irem  cidade fazer compras.
- A carruagem s no basta. Quero que a princesa Adele chame a ateno, portanto iremos  cidade em grande estilo.
- Vossa Alteza quer dizer que precisam de uma escolta?
- Perfeitamente.
- Isso jamais aconteceu antes e certamente causar sensao.
-  essa a minha inteno - admitiu Zuleika.
- Est bem. O que mais, Alteza?
- Organize uma lista de rapazes e moas que regulem de idade com a princesa ou pouco mais velhos. Vamos convid-los para as festas que iremos oferecer. - Zuleika ia chamar a princesa quando se lembrou de mais uma coisa. - Ah, tambm quero ver o chef para combinarmos o jantar de amanh. O conde falou que seremos vinte  mesa.
- No sei o que o camareiro-mor ir dizer a respeito de tudo isso - falou Anton Bauer com uma ruga de preocupao marcando-lhe a testa.
- Tenho certeza de que voc saber lidar com ele - tornou Zuleika em tom lisonjeiro. - Marque tambm para amanh uma audincia com o primeiro-ministro. Preciso falar-lhe a ss.
- Com o primeiro-ministro? - Anton Bauer arqueou as sobrancelhas.
- Foi ele quem me convidou para ser dama de companhia da princesa e sinto-me na obrigao de falar-lhe sobre o que estou fazendo e sobre o que pretendo fazer. 
- Compreendo. Quero aproveitar a oportunidade para dizer-lhe que lamento o que aconteceu no final do jantar. Imaginei que Sua Alteza Real seria mais cuidadoso esta noite, uma vez que Vossa Alteza acaba de chegar.
 - Ele bebe muito?
- Demais e com frequncia, lamentavelmente.
- Que bebida era aquela?
- Vodca.
- Vodca  uma bebida muito forte. - Zuleika suspirou.
Comeava a compreender por que Krnov estava to abandonada. Mas o que poderia fazer?
Por enquanto no sabia a resposta.
Ela deu boa noite a todos e foi para junto da princesa que conversava com o conde. Relutante, ela levantou-se da cadeira e as duas deixaram a sala.
Ainda estavam no corredor quando o conde correu atrs delas para falar com Zuleika.
- Esqueci-me de perguntar-lhe se pretende cavalgar amanh.
- Naturalmente. Receio que os cavalos de Sua Alteza Real nos desapontem. Neste caso, montaremos os nossos.
- Foi o que pensei. Tive uma idia mas falarei sobre ela amanh, enquanto cavalgarmos - disse o conde.
- Poderemos sair s oito. Este horrio est bem para voc?

- Est perfeito. Voltaremos s nove para o breakfast.
O conde ia retornar  sala quando a princesa Adele perguntou:
- Posso cavalgar com vocs?
-  claro que pode! Ns no pretendamos fazer o passeio sem voc - Zuleika falou com veemncia. - O conde escolher dois cavalos excelentes para ns.
- Prometo fazer isso - declarou o conde. - Estarei com os animais  porta da frente do palcio, s oito.
As duas princesas agradeceram, despediram-se do conde e ele afastou-se.
- No acredito que tudo isto esteja acontecendo realmente. Chego a pensar que estou sonhando - disse Adele quando ambas chegaram  Sute das Rosas.
- Isto  s o comeo - avisou Zuleika. - Sua vida ir tornar-se cada dia mais alegre.
Ambas se despediram com um abrao e um beijo.
-  maravilhoso ter voc aqui. Por favor, no v embora to cedo - pediu Adele.
- Ficarei o mximo que puder. Mas deixei papai sozinho e sei que ele sente muito a minha falta. - Zuleika viu o desapontamento nos olhos da princesa e completou depressa: - Mas no vamos falar da minha partida se acabei de chegar. O que temos a fazer  ir para a cama para acordarmos bem dispostas, amanh.
- No vejo a hora de amanhecer para irmos cavalgar. - A princesa deu outro beijo na amiga e foi para seu quarto.
Ficando a ss com a criada pessoal, Zuleika sentou-se na banqueta  frente do espelho para escovar os cabelos e perguntou:
- O que voc tem para me contar? Como os criados reagiram  nossa chegada?
- Todos esto na maior agitao. Os mais velhos reclamam que o servio vai aumentar e os mais novos esto felizes porque a chegada de Vossa Alteza trouxe vida nova ao palcio. "J no era sem tempo", eles disseram.
- O servio ir aumentar, claro. O conde pretende organizar festas todas as noites. Mas novos criados sero contratados.
- Pelo que ouvi dizer, o prncipe no tomar parte em festa nenhuma.
- O que lhe contaram sobre o prncipe Majmir?
- Eles comentaram que Sua Alteza Real bebe toda a noite at cair. Os criados, ento, levam-no para a cama.
- Isso  pssimo para o pas e no pode continuar - Zuleika falou com firmeza. - Temos de encontrar uma soluo para esse problema.
Ela ficou em silncio, reflectindo. Ainda estava impressionada com a cena lamentvel que presenciara ao jantar. O pai tinha razo de estar muito preocupado com Krnov.
As notcias voavam nas asas do vento e os criados sempre falavam mais do que deviam. Portanto, o vcio do prncipe devia ser conhecido no principado e at fora dele.
Zuleika suspeitava que os prussianos j tinham agentes infiltrados em Krnov para causar tumultos e preparar o caminho para a Prssia tomar o pas.
"Tenho de fazer alguma coisa para que Krnov mantenha a sua independncia", Zuleika pensou. "Mas, o qu?"
Aquele havia sido um longo dia e ela adormeceu quase no mesmo instante em que pousou a cabea no travesseiro.


Assim que Marla afastou as cortinas, Zuleika despertou. Eram sete e meia e o sol brilhava l fora.
"Est um dia perfeito para um passeio a cavalo?", Zuleika pensou satisfeita.
Tendo sido informada de que uma das criadas j havia acordado a princesa, ela saltou da cama, lavou o rosto e vestiu o conjunto de montaria que a criada acabara de tirar do guarda-roupa. Era quase novo e muito elegante. O chapu tinha ao redor da copa alta uma longa faixa de chiffon azul, do mesmo tom do conjunto, cujas pontas caam-lhe s costas.
Ao descer a escada Zuleika notou que o conde e os trs jovens cavalheiros que se achavam no hall olhavam-na admirados.
No havia sinal de Pieter Seitz ou de Anton Bauer.
Os cavalheiros, todos eles oficiais do regimento mais importante de Krnov, acabavam de ser apresentados a Zuleika quando a princesa Adele desceu a escada correndo, um pouco atrasada.
Seu rosto corado indicava empolgao, no s por antecipar o prazer do passeio, como por conhecer trs rapazes belos e elegantes.
- Os oficiais vo levar-nos a um lugar excelente para galopar - avisou o conde. - Eu mesmo me encarreguei de escolher um cavalo magnfico para a princesa Adele.
Todos montaram e Zuleika ficou por um instante apreensiva, atenta  princesa, receando que ela no soubesse montar. Porm, assim que partiram, Adele mostrou que no desmerecia o sangue russo nas veias.
Guiados por um dos oficiais, cavaleiros e amazonas atravessaram o jardim do palcio e seguiram por um atalho que conduzia a uma plancie marginando um rio.
Uma vez na extensa faixa de terra coberta de relva e florinhas silvestres, sobre as quais adejavam centenas de borboletas amarelas, eles puseram-se a galope.
O sol brilhava intensamente e muito ao longe avistavam-se as montanhas. Aquela parte de Krnov, Zuleika pensou, era to encantadora quanto Opava.
Galoparam vrias milhas, depois refrearam os animais. O conde conduziu seu cavalo para o lado de Zuleika e ambos ficaram, deliberadamente, para trs.
- Quero expor-lhe a minha idia - disse o conde.
- Estou ansiosa para saber do que se trata - falou Zuleika demonstrando interesse.
- Fui ontem  sala dos oficiais e quando me apresentei, os que me conheciam de nome e sabiam da minha grande percia como cavaleiro, passaram a falar sobre cavalos - comeou o conde. - Percebi que eles tm paixo por corridas e equitao.
- No  de surpreender. - Zuleika sorriu.
- Tambm fiquei sabendo que o Exrcito  bem pequeno - o conde prosseguiu. - O comandante e os oficiais que vieram cavalgar connosco querem recrutar voluntrios. O problema  o desinteresse por parte da populao. Tive ento a idia de sugerir ao comandante para anunciar que todos os que se alistarem sero treinados por mim, um campeo. Se houver muitos voluntrios poderei contar com a ajuda de alguns oficiais. O que voc acha?
-  uma idia excelente! - Zuleika aprovou. - Notei que o palcio no  bem guardado.

- O Exrcito no conta com a metade dos soldados que seriam necessrios para defender o pas. Da mesma forma que voc, estou muito preocupado com Krnov.
- Como sabe que estou preocupada com Krnov? - perguntou Zuleika, surpresa.
- No sou tolo - falou o conde com um sorriso. - Logo que cheguei a Opava percebi que seu pai e os homens inteligentes do governo esto extremamente apreensivos com o que est acontecendo neste pas.
- Eu nem imaginei que voc tivesse notado isso.
- Na verdade meu pai tambm alertou-me sobre a situao reinante em Krnov e compreendi que alguma coisa devia ser feita. Ento fui para Opava.
- Estou muito contente por saber de tudo isto e tambm que voc est to preocupado quanto papai e eu. Naturalmente, voc no ignora que aceitei o convite do primeiro-ministro para ser dama de companhia da princesa Adele para descobrir o que se passa em Krnov e ajudar o principado no que for possvel. - Zuleika suspirou. - Papai tem muito medo de que a queda de Krnov ponha em perigo a independncia de Opava e, claro, de Cieszyn.
- O prncipe Laszlo tem motivos para estar temeroso - falou o conde, assentindo com a cabea. - Krnov no tem condies de se defender de um ataque dos prussianos.
- Alguma coisa deve ser feita e com urgncia. Pretendo ter hoje uma audincia com o primeiro-ministro. Sei que ele tambm teme pela segurana do pas.
- Quando voc estiver com ele, exponha-lhe o meu plano - pediu o conde. - Todos os que se alistarem como voluntrios aprendero comigo e alguns oficiais a montar e tambm a atirar. Mas o primeiro-ministro deve reunir-se com o ministro da guerra e alguns generais para iniciarem imediatamente uma campanha de recrutamento e treinamento de jovens para o Exrcito.
- Farei isso.  noite eu lhe transmitirei o que foi decidido na audincia.
Os dois fustigaram seus cavalos e saram a galope para alcanar os oficiais e a princesa que se haviam distanciado deles. Estava na hora de voltarem para o palcio.
- Foi um passeio absolutamente maravilhoso! - Adele exclamou quando chegaram ao ptio das cocheiras.
- Vamos cavalgar amanh novamente - props o conde. - Devo dar os parabns a Vossa Alteza, pois monta excepcionalmente bem.
- Obrigada. - Um lindo sorriso iluminou o rosto da princesa. - Sinto-me muito lisonjeada por receber um elogio desses de um cavaleiro que monta to bem. Receei no estar  altura do excelente cavalo que voc escolheu para mim.
Antes de o cavalo ser levado para a baia a princesa deu umas palmadinhas em seu pescoo.
Observando-a Zuleika reflectiu que era pena algum to adorvel e sensvel viver to isolada, sozinha e sem afeio, pois o prncipe parecia no se importar com a filha.
At os criados e funcionrios do palcio tratavam a princesa como se ela no tivesse importncia. Zuleika ficara sabendo que Adele s deixava seus aposentos para dar uma volta no jardim do palcio e quando cavalgava era acompanhada apenas por um dos velhos cavalarios.

Ningum considerava a herdeira ao trono suficientemente importante para ter uma escolta apropriada ou mesmo um ajudante-de-ordens para acompanh-la.
"As coisas sero diferentes daqui por diante", Zuleika disse a si mesma com convico ao entrar com o grupo no palcio.
Muito surpresa, ela notou que, quela hora, quase nove, no havia nenhum dos ajudantes-de-ordens do prncipe nem o mordomo em servio. Eles foram recebidos apenas por dois lacaios.
"Todo o palcio  mal administrado e o culpado disso  o camareiro-mor", ela pensou, ao subir a escada para ir ao quarto tirar o chapu. "Ontem ele no foi nem um pouco cordial. Receio que seja antes um inimigo do que amigo."
O pensamento a fez sentir um calafrio. Excepto pelo conde, estava sozinha naquela luta, sem armas e sem apoio. Era muito pouco para ter a certeza de vencer.
Para alegria de Adele os oficiais tomaram o breakfast com elas e o conde. Quando se despediram eles prometeram que as acompanhariam no passeio a cavalo na manh seguinte.
Antes de subir com a princesa para trocar-se, Zuleika falou com o mais idoso dos ajudantes-de-ordens do prncipe.
- Eu gostaria que uma carruagem estivesse  frente do palcio em meia hora. Vou acompanhar a princesa Adele s compras. Por favor, mande um mensageiro  loja mais importante da cidade avisar que Sua Alteza Real Estar chegando e exige toda a ateno do gerente e dos chefes de todos os departamentos.
O velho ouviu-a perplexo e contestou:
- Isso nunca foi feito antes, Alteza.
- Mais uma razo para ser feito agora! - Zuleika replicou em tom firme. - Por favor, d as ordens imediatamente ou eles no estaro preparados para receber-nos quando chegarmos.
O conde que estava ouvindo, falou:
- Anton Bauer me disse que vocs precisavam de uma escolta.
- Precisamos, claro.
- Bem, pelo que vi at agora, o pessoal do palcio parece no conhecer seus deveres. Convm eu mandar dois soldados que vieram connosco de Opava acompanharem dois do palcio.  o modo mais rpido de ensin-los a proceder correctamente - sugeriu o conde.
-  uma idia excelente. Faa isso - Zuleika concordou.
Mal ela acabou de falar uma voz zangada soou s suas costas.
-  um facto sem precedentes a princesa Adele exigir uma escolta para ir  cidade!
- Bom dia - Zuleika cumprimentou o camareiro-mor com exagerada polidez.
- Bom dia - tornou o camareiro-mor secamente - Como acabei de salientar, no h necessidade de a princesa Adele ter uma escolta para ir s compras.
- Mas h necessidade de uma escolta para mim - Zuleika falou altivamente. - Meu pai jamais permitiria que eu andasse pelas ruas de uma cidade estranha sem uma escolta. Quanto  princesa Adele, creio que ela deve comear a apresentar-se em lugares pblicos para que a conheam e tenham por ela profundo respeito.
- E para isso a princesa deve ter uma escolta? - o camareiro-mor indagou de modo agressivo.
-  imprescindvel! Da mesma forma,  imprescindvel que ela tenha roupas prprias para uma princesa. S um cego no v que os trajes de Sua Alteza so os de uma garota de colgio. Ela no pode aparecer em pblico usando roupas to inadequadas!

Sem ter como argumentar, o camareiro-mor resmungou alguma coisa para si mesmo e afastou-se sem se curvar, como seria correcto fazer diante de uma princesa.
O conde no conteve o riso e sussurrou para Zuleika:
- Voc ter de livrar-se dele.
-  o que desejo fazer, mas no sei como - ela respondeu tambm em voz baixa.
- No ser fcil. Esse homem ir agarrar-se ao cargo como se fosse uma tbua de salvao, o que, na verdade, . Se ele sair do palcio quem empregar um velho to ranzinza?

 Para Adele ir  cidade Zuleika emprestou-lhe outro vestido. No tinha propsito a herdeira do trono sair do palcio com toda a pompa e apresentar-se mal trajada.
A carruagem com a capota descida e a escolta j se achavam  frente do palcio quando as duas princesas desceram.
Por mais que o conde tivesse tentado deixar elegantes os dois soldados do palcio, eles destoavam daqueles vinos de Opava.
Como Zuleika esperava, a carruagem e a escolta da princesa Adele chamaram a ateno. As crianas apontavam para elas e as pessoas que caminhavam nas caladas paravam para ver a novidade.
Adele acenava para todos que olhavam para ela com interesse, mas ningum respondia aos acenos. Pelo menos, Zuleika pensou, a princesa chama a ateno e o povo teria o que comentar em Krnov.
Elas chegaram a uma grande loja de departamento. Vrios transeuntes ficaram parados a certa distncia curiosos, porm silenciosos, esperando as duas princesas descerem da carruagem.
O mensageiro j havia avisado ao gerente da loja que a princesa Adele estava a caminho e ele curvou-se respeitosamente para ela e Zuleika. Em seguida perguntou que departamento elas queriam ver em primeiro lugar.
- Desejamos ver as melhores e mais elegantes roupas que houver, para todas as ocasies - Zuleika respondeu.
O gerente vibrou com o pedido e levou pessoalmente as duas princesas ao primeiro andar. Chamou a chefe e as vendedoras de cada departamento, orientou-as e afastou-se.
Depois de quase duas horas Adele tinha o que Zuleika considerou um enxoval bsico e digno de uma princesa.
- Nunca imaginei que eu fosse ter roupas e complementos to maravilhosos e em to grande quantidade - Adele segredou a Zuleika. - Ser que papai ir pagar a conta de bom grado?
- Na minha opinio ele ficar muito feliz ao ver a filha linda e elegante - Zuleika respondeu.
Intimamente ela considerou que, pelo que vira no palcio, no seria muito fcil para o prncipe obter do tesouro tanto dinheiro. Porm, ela confiava no primeiro-ministro; sabia que ele teria argumentos para apresentar e conseguiria o que fosse necessrio para cobrir as despesas.
As duas deixaram a loja acompanhadas pelo gerente que era todo mesuras. Naquele curto espao de tempo ele conseguira dois buqus de flores para presentear as princesas.
Ao entreg-los agradeceu mil vezes a preferncia dada  loja e prometeu entregar toda a compra no palcio o mais depressa possvel.

Na carruagem, de volta ao palcio, Adele no cabia em si de contentamento.
- Nunca imaginei que isso fosse acontecer!  maravilhoso! Estou to feliz! - ela ficou repetindo. - Papai no ficar zangado, no  mesmo?
- No vejo razo para ele zangar-se. O prncipe ter de se acostumar a v-la bonita, elegante e, claro, crescida - Zuleika apontou.
-  verdade. Papai no pode esperar que eu permanea criana para sempre - Adele murmurou.
Para mudar de assunto, Zuleika falou com entusiasmo:
- O conde prometeu convidar alguns rapazes para jantar connosco. Depois vamos danar. Voc deve usar o vestido mais lindo esta noite. Ser sua apresentao ao mundo social.
Ao dizer isso Zuleika olhou ao redor. A cidade e o povo pareceram-lhe to pobres. Um pensamento sombrio deixou-a apreensiva.
Se os prussianos estivessem planeando tomar Krnov, o momento era o mais propcio. Eles encontrariam bem pouca oposio tanto do governo como do povo.

CAPTULO IV

De volta ao palcio Zuleika e Adele almoaram com Anton Bauer. No havia sinal do conde ou de Pieter Seitz.
Logo aps o almoo um dos ajudantes-de-ordens informou a Zuleika que o primeiro-ministro teria a honra de receb-la  tarde em seu gabinete, no prdio do Parlamento.
Novamente Zuleika mandou preparar a carruagem e pediu a Adele para ver se a sala de msica estava limpa e em ordem.
- Ser bom voc verificar se o salo de baile tambm est arrumado - a princesa completou. - Se o conde convidar muitas pessoas a sala de msica ser pequena para todos ns. Ah, providencie para que haja flores, muitas flores, por toda a parte.
A princesa afastou-se apressada, feliz por supervisionar o trabalho dos criados e mais por ter a oportunidade de dar ordens.

O edifcio do Parlamento no ficava distante do palcio. Assim que se apresentou, Zuleika foi levada  presena do primeiro-ministro.
- Devo desculpar-me por ter-lhe pedido que viesse at meu gabinete - disse o primeiro-ministro quando ele e Zuleika ficaram a ss. - Tive receio de que no palcio algum nos pudesse ouvir.
- O senhor suspeita de algum?
O primeiro-ministro mostrou-se hesitante e Zuleika achou que ele no iria responder  pergunta. Pouco depois ele falou:
- Tenho notado que o camareiro-mor  abertamente contra toda a inovao, seja no palcio ou no pas.
- Tive a mesma impresso - Zuleika revelou. - Reconheo que no ser fcil, mas o senhor deve dispens-lo do cargo.
O gesto que o primeiro-ministro fez com as mos traduziu seu desalento por no poder agir.
- O camareiro-mor, como Vossa Alteza sabe,  nomeado pelo soberano e tenho certeza de que Sua Alteza Real no est interessado em despedir ningum.
- Naturalmente o senhor no ignora que a independncia do pas est ameaada - Zuleika assinalou.
- Tenho plena conscincia disso - afirmou o primeiro-ministro. - Assumi o cargo recentemente e no posso compreender como foi possvel o pas chegar ao estado em que se encontra. O Exrcito  praticamente inoperante e as fortificaes esto desmoronando.
- Foi exactamente isso que meu pai suspeitou que eu iria encontrar aqui. Papai quer obter todas as informaes possveis sobre o pas para poder, juntamente com o prncipe Vaslov de Cieszyn, ajudar Krnov.
A revelao fez com que o primeiro-ministro ficasse muito erecto na cadeira.
- O prncipe Vaslov! Esta  uma ptima notcia! Ele  um soberano dinmico e tem feito muito por seu pas. Os prussianos no s o respeitam como o temem.
- Outra pessoa com quem podemos contar  com o conde. Procure falar com ele - o primeiro-ministro sugeriu. - Ele tem muitas idias. Como tambm  jovem e entusiasmado, atrair para o Exrcito aqueles que esto desempregados e sem dinheiro.

- Fiquei sabendo que ele pretende recrutar voluntrios para a cavalaria, mas precisamos de mais soldados para a infantaria. - O primeiro-ministro suspirou. - Os generais so todos idosos e no querem mais trabalhar. Estou esperando receber mais armas e no h soldados para manej-las. 
- No momento, enquanto meu pai no convencer o prncipe Vaslov a aliar-se a ns, acho que o senhor deve conversar com o conde - Zuleika insistiu.
- Sim, falarei com ele.
- O conde tambm est empenhado em alegrar o ambiente no palcio. Teremos convidados para jantar desta noite e depois um pequeno baile. Achamos que ser uma boa maneira de demonstrar aos prussianos que o clima no  de inquietao.
- Vocs esto certos - aprovou o primeiro-ministro. - As notcias do que est acontecendo no palcio circularo pela cidade e fora dela.
- Pretendo mandar Pieter Seitz a Opava imediatamente para relatar a meu pai como est a situao aqui em Krnov. Tambm pedirei a papai que nos mande cavalos.
- Temos muitos e bons cavalos em nosso pas, porm, no se comparam aos magnficos puros-sangues de Sua Alteza Real - admitiu o primeiro-ministro. - Ficaremos muito agradecidos pelos que ele nos mandar.
- Mandarei dizer isso a meu pai. - Em outro tom Zuleika pediu: - Estou com um pequeno problema e vou precisar da sua ajuda.
- Em que poderei ajud-la? - O primeiro-ministro pareceu surpreso. -  claro que farei o que Vossa Alteza desejar.
- Sua Alteza e eu samos para fazer compras e, precisando de roupas como a princesa estava, a conta a ser mandada ao palcio  bem grande - Zuleika exps. - Receio que o camareiro-mor se mostre desagradvel; se for assim, posso mandar-lhe a conta? O senhor compreende, claro, que o facto de Sua Alteza apresentar-se em pblico e mostrar-se sempre bem vestida no deixa de ser uma arma contra o inimigo.
O primeiro-ministro riu.
- Os argumentos que Vossa Alteza usa para persuadir-me so diferentes de tudo o que j ouvi antes.  claro que pagarei todas as contas que me forem enviadas. Vossa Alteza est fazendo exactamente o que achei que era necessrio e s posso dizer que lhe sou imensamente grato.

A primeira providncia de Zuleika quando chegou ao palcio foi mandar chamar Pieter Seitz.
- Vamos dar uma volta pelo jardim. Est uma tarde linda - ela convidou o ajudante-de-ordens assim que ele entrou na sala, apressado.
Ele olhou para a princesa de modo a dizer, sem palavras, que havia entendido que ela precisava falar-lhe sem que os ouvissem. Respondeu sem hesitar:
-  uma excelente idia, Alteza. H no jardim algumas plantas que no temos em Opava e que talvez a interessem.
- Ah, sim. Adoro flores.
Eles foram para o jardim e caminharam pelo gramado at uma fonte. Ficaram ali parados como se estivessem admirando os peixinhos dourados que nadaram no tanque ou a gua que caa e ao sol parecia feita de milhares de minsculos arco-ris.
Resumidamente, Zuleika exps a Pieter Seitz o que havia conversado com o primeiro-ministro.

- Se no for cansativo demais, pois chegamos ontem, eu gostaria que voc partisse para Opava imediatamente - Zuleika completou. - Quanto mais cedo papai for informado do que se passa aqui, melhor.
- Partirei em seguida - Pieter Seitz declarou. - J percebi que devemos ter muito cuidado com o camareiro-mor. Para no levantar suspeitas ou aguar sua curiosidade, direi que vou a Opava buscar algumas jias para Vossa Alteza porque haver festas no palcio.
-  uma desculpa perfeita. Pea a papai para mandar-me a mais delicada das tiaras e um colar, peas das quais mame gostava muito, dessa forma no haver dvidas sobre o motivo de sua viagem.
- Est bem, Alteza.
- No comente com ningum sobre o que conversamos, excepto com o conde - a princesa recomendou.
- Tudo ser mantido em segredo - asseverou Pieter Seitz. - Da mesma forma que ns, o conde est muito preocupado com a situao. Ontem  noite, depois que Vossa Alteza e a princesa Adele se retiraram da sala, o conde e eu fomos at  cidade. Ningum sabia quem ns ramos e circulamos entre o povo, fomos a alguns bares e  grande praa central.
- Vocs descobriram alguma coisa? - Ao fazer a pergunta Zuleika olhou, instintivamente sobre o ombro para certificar-se de que no havia ningum por perto.
- Sim. - Pieter Seitz baixou mais a voz. - Temos certeza de que os prussianos esto se infiltrando na capital e nas outras cidades. O pior  que eles j comearam a fazer a prospeco de mineiros nas montanhas mais distantes e delimitaram as reas onde h as mais ricas jazidas, as quais os krnovianos no se preocupam em explorar.
- Como eles podem ser to imbecis? - Zuleika indignou-se.
- H falta de governo neste pas - lamentou o ajudante-de-ordens. - Vossa Alteza presenciou a cena deplorvel de ontem  noite. O prncipe Majmir  fraco e deixou-se dominar pela bebida.
- Mas o pas no pode cair nas mos dos prussianos! Se eles tomarem Krnov. Voltar-se-o, cobiosos, para Opava e Cieszyn!
Pieter Seitz assentiu com a cabea. No havia necessidade de palavras para dizer o que ambos j sabiam. 
- Vou preparar-me para partir o quanto antes - avisou. - Imagino que Vossa Alteza queira escrever para o prncipe Laszlo. Mas deve ser uma carta muito discreta, pois h sempre o perigo de eu ser interceptado na estrada.
Os grandes olhos azuis de Zuleika tornaram-se ainda maiores.
- Oh, voc no est pensando que isso ir acontecer, no  mesmo?
- Espero que no; e irei rezando para chegar a Opava sem problemas.
- Bem, ser mais seguro se voc viajar acompanhado - Zuleika aconselhou. - Fale com o conde e ele providenciar dois dos mesmos cavalarianos, devidamente armados, para servir-lhe de escolta. Quanto ao motivo da viagem eu mesma direi ao camareiro-mor e a quem mais estiver interessado porque o mandei at meu pai.
- S para buscar uma tiara, naturalmente - Pieter Seitz completou com afectada gravidade.
Ambos deram um meio-sorriso que serviu para descontra-los. Mas havia muita coisa em jogo e eles voltaram para o palcio.

Em seu quarto Zuleika escreveu uma cartinha para o pai e entregou-a a Pieter Seitz.

As duas princesas no viram o conde nem souberam o que ele estivera fazendo, seno  hora do ch.
- Estou faminto! Meu almoo foi apenas um sanduche - disse ele ao sentar-se numa poltrona confortvel para comer um grande pedao de bolo confeitado que Zuleika lhe ofereceu. - Tive muito trabalho, mas tomei todas as providncias para o baile desta noite ser um sucesso.
- Voc conseguiu! - exclamou a princesa Adele, radiante.
- Todos os convidados j foram avisados que esta noite ser a primeira de uma srie de festividades em sua honra, Alteza - acrescentou o conde.
A princesa Adele olhava para ele com uma expresso radiosa.
- Conte-nos o que voc preparou para esta noite - pediu Zuleika.
- No tive tempo de entrar em contacto com todas as pessoas com quem eu pretendia falar, portanto, o baile desta noite ser mais simples. Mas haver um grandioso baile para a princesa Adele na prxima semana. Os secretrios j esto enviando os convites.
- Um grande baile para mim? - Havia um brilho de estrelas nos olhos da princesa e enlevo em sua voz.
- Todo seu - o conde confirmou. - Voc deve usar o vestido de baile mais lindo que houver e todas as suas jias para ficar resplendente qual uma rvore de Natal.
- Exageros  parte, pode ter certeza de que brilharei mesmo nesse baile - tornou a princesa, rindo. - Comprei roupas deslumbrantes! Tudo est sendo to maravilhoso que mal posso acreditar que seja verdade.
- Tambm estou organizando uma corrida a ser realizada na semana que vem. A pista est abandonada e precisa de alguns reparos, pois no h corridas aqui h cinco anos. J contratei quase cem homens para deixar tudo impecvel para a corrida. - O conde tinha um sorriso no canto da boca ao acrescentar: - Estamos movimentando a cidade. H mensageiros anunciando pelos quatro cantos do principado quando ser a corrida e avisando que todos que tiverem cavalos em condies de usar as quatro pernas devem inscrev-los, pois haver diversas modalidades de provas. Inclusive algumas bem divertidas.
- Voc  fantstico! - Zuleika elogiou-o, sorridente. - J imaginou que as corridas sero um grande acontecimento na cidade. Todos, velhos e moos, homens e mulheres gostam de corridas.
- Vou participar das corridas e estou interessado em saber quem aceita competir comigo.
 Oh, no! - Zuleika protestou. - Voc vencer todas as provas, a no ser que conceda vantagens ao adversrio mais fraco.
- Nada de conceder vantagens - foi a vez de o conde protestar. - Prova  prova. Que vena o melhor!
- Voc no est sendo cavalheiro - retorquiu Zuleika.
- Bem, se meu adversrio for uma lady, posso dar-lhe alguma vantagem - considerou o conde. - Estive pensando se no seria interessante incluir ladies nas provas.
- Ladies? - Zuleika olhou para o conde, perplexa. - Nunca ouvi dizer que ladies se inscrevessem em corridas.
A princesa Adele, ao contrrio, vibrou com a idia.

- Eu quero participar de uma prova pelo menos! Ser a coisa mais empolgante da minha vida! Por favor, posso inscrever-me?
- O que voc acha? - O conde consultou Zuleika.
Ela fez um gesto com as mos. Comeava a gostar da idia.
-  algo incomum - opinou - mas far com que o povo fale sobre o assunto.
-  o que queremos - ele replicou.
No foi preciso nenhum deles dizer mais nada. Os comentrios fervilhariam se fossem realizadas corridas nas quais mulheres tomassem parte.
- Tenho outras idias, mas no vamos discuti-las agora. - Em outro tom o conde recomendou s princesas: - O jantar precisa ser melhor do que o da noite anterior e isso  departamento de vocs duas.
- Oh, eu pretendia falar com o chef logo pela manh e acabei esquecendo - Zuleika falou, pesarosa. - Mas mandarei cham-lo e verei o que se pode fazer.
- Enquanto voc fala com o chef, a princesa Adele vai levar-me at o salo de baile e  sala de msica. - O conde ficou de p. - Acredito que a sala comporta os convidados desta noite que no so muitos.
Os dois saram e Zuleika tocou uma campainha. Quando o mordomo apareceu ela avisou-o que precisava ver o chef.
Poucos minutos depois ela falava com um francs ainda jovem. Na lngua dele perguntou-lhe h quanto tempo trabalhava no palcio.
- Vim de Paris h poucos meses, Alteza - ele respondeu. - Minha inteno  trabalhar em diferentes pases para aprender pratos tpicos especiais e tambm para ensinar a outros chefes um pouco da culinria francesa.
- Aqui em Krnov, pelo menos, isso  necessrio - observou Zuleika com um sorriso. - Temos no palcio, em Opava, um chef francs. Os franceses so os que mais entendem de cozinha em toda a Europa.
O chef curvou-se, lisonjeado.
- Vossa Alteza  muito amvel. Posso preparar as iguarias mais finas se tiver condies para tal.
-  sobre isso que desejo falar com voc.
O chef exps que seguia as ordens do camareiro-mor e queixou-se de no ter os ingredientes que pedia, nem ajudantes.
Se o problema era to simples, Zuleika esclareceu, a cozinha e a despensa seriam abastecidas com o que houvesse de melhor. Ela tambm autorizou o chef a empregar quantos ajudantes julgasse necessrio. Exps tambm que haveria no palcio festas constantes em homenagem  princesa Adele.
- So boas notcias, Alteza - o chef falou com um brilho no olhar. - Com bons ingredientes e mais ajudantes, sou capaz de operar milagres. Mas Vossa Alteza compreende... recebo ordens do camareiro-mor.
- Falarei com o camareiro-mor sobre a contratao de pessoal da cozinha e sobre o salrio que lhes ser pago - Zuleika tranquilizou o rapaz. - Quanto a voc, bastar entrevistar alguns candidatos e seleccionar aqueles que julgar competentes.
O chef afastou-se reanimado e Zuleika falou com o mordomo.
Era inadmissvel ver num palcio a mesa posta negligentemente, sem uma decorao adequada e com a prataria manchada.

Ao ouvir que o jantar seria para trinta convidados, o mordomo ergueu as mos e emitiu uma exclamao de horror.
- Impossvel, Alteza! Inteiramente impossvel!
- Receio que ter de ser possvel - Zuleika contra-argumentou. - As pessoas j foram convidadas em nome de Sua Alteza, a princesa Adele. Este  o primeiro baile, mas muitos outros viro.
- Contamos com um nmero reduzido de lacaios, Alteza - o mordomo queixou-se.
- Contrate quantos lacaios forem necessrios - redarguiu Zuleika.
- Receio que o camareiro-mor no seja da mesma opinio, Alteza - alegou o mordomo cada vez mais inquieto.
- No momento eu dirijo o palcio. Estou aqui a pedido do primeiro-ministro e ele deu-me liberdade de fazer o que julgasse melhor para o bem de Krnov. Como tudo no pode ser feito ao mesmo tempo, estou comeando por este palcio. Ou o senhor colabora comigo ou ser substitudo por algum que ame este pas e esteja disposto a trabalhar pelo seu bem - Zuleika admoestou o mordomo. - Lamento dizer que este pas, que antes se igualava a Opava e Cieszyn, est dando pssima impresso aos seus vizinhos.
- Tentarei fazer o que Vossa Alteza deseja - disse o mordomo humildemente, receando perder o emprego. - Sei, no entanto, que no ser fcil.
- Nada  fcil - frisou Zuleika. - Pelo contrrio, tudo  difcil de ser consertado num lugar como este palcio, que tem sido negligenciado h anos. Eu j o autorizei a empregar mais lacaios. E espero que esta noite a prataria esteja reluzente. Tire do cofre os enfeites mais lindos e preciosos para decorar a mesa e o salo de jantar.
Notando a falta de reaco do mordomo e seu ar angustiado, Zuleika abrandou o tom de voz.
- Posso fazer-lhe uma sugesto? Como h muita coisa a ser feita em pouco tempo, por que o senhor no contrata alguns garons do melhor restaurante da cidade? Providenciarei para que o camareiro-mor pague condignamente pelos servios prestados.
O pobre homem pareceu criar nova alma.
- Oh, sim, claro, posso fazer isso, Alteza. Conheo o melhor restaurante da cidade e sei que o proprietrio se sentir honrado em ceder alguns garons para servir o palcio.
- Est resolvido - finalizou Zuleika. - V pessoalmente contratar seus ajudantes ou mande um dos lacaios at o restaurante.
O mordomo deixou a sala apressado.
Sentindo que travara dois combates, Zuleika serviu para si prpria outra xcara de ch.
Saboreava a bebida quente e reconfortante quando o camareiro-mor veio falar-lhe. Sua expresso zangada no a surpreendeu. Suas palavras tambm foram exactamente as que ela esperava.
- Realmente, no consigo entender o que est acontecendo, Alteza. Por que est dando ordens sem me consultar?
- Para qu aborrec-lo? O conde convidou, em nome da princesa Adele, um grande nmero de pessoa para jantar e pediu-me para falar com o chef e o mordomo.

- Um grande nmero de pessoas para jantar! - repetiu o camareiro-mor, atnito. - Como ser possvel tantos convidados, em cima da hora?
- No ser impossvel nem difcil - Zuleika discordou. - As pessoas encarregadas dessa tarefa j foram orientadas sobre o que fazer.
- Mas os gastos? Festas, jantares custam muito dinheiro.. Tenho certeza de que Sua Alteza, o prncipe, ir considerar desnecessria tal extravagncia - argumentou o camareiro-mor.
- Sua Alteza Real, o prncipe, compreender perfeitamente o que estamos fazendo - Zuleika falou devagar. - Decidi que ser melhor eu falar com ele. Vou explicar-lhe o que vim fazer aqui e por que  necessrio demonstrarmos que o estado deste palcio no  to deplorvel quanto dizem e que h vida em seu interior.
- O que Vossa Alteza est dizendo? - esbravejou o camareiro-mor , fitando Zuleika com uma expresso de perplexidade. - Estado deplorvel do palcio? Quem anda espalhando mentiras sobre ns?
- So mentiras? - Zuleika encarou o camareiro-mor de modo desafiador. - O senhor no pode ser to cego a ponto de no ver que Krnov no se compara, de forma alguma, com os outros dois principados que se mantm austracos e livres do jogo da Prssia. O povo de Krnov empobreceu porque as riquezas minerais no so exploradas; o solo no  cultivado adequadamente e no h incentivo  lavoura.  grande o desemprego e, se quer a verdade, senhor, o Exrcito  uma vergonha! Dessa forma vocs no conseguiro preservar sua independncia!
Atnito demais por ter ouvido todas aquelas verdades, o camareiro-mor no soube o que dizer. Naquele momento desejou com todas as suas foras expulsar a princesa do palcio. Mas no ousou.
Inspirando fundo e enquanto procurava, desorientado, palavras para argumentar, Zuleika voltou a falar.
- O melhor que tem a fazer, senhor,  deixar que eu realize meu trabalho sem interferncias. Saiba que tenho todo o apoio do primeiro-ministro. E agora, por favor, com a sua autoridade, exija que este palcio esteja sempre impecvel. J falei com o mordomo. Receberemos hspedes e convidados e no quero que fiquem chocados como eu fiquei ao entrar aqui.
Sem esperar resposta Zuleika afastou-se. O camareiro-mor permaneceu no mesmo lugar, como se pregado ao cho e no se adiantou para abrir a porta.
Ofegante aps o desabafo, Zuleika caminhou sem pressa para a sala de msica. Encontrou ali, como esperava, o conde e a princesa Adele. Ambos refaziam os arranjos de flores que os jardineiros haviam feito sem o menor cuidado ou senso de esttica.
- Se queremos uma coisa bem feita teremos de faz-la ns mesmos - disse o conde ao ver Zuleika.
-  isso mesmo. "Quem no quer, manda" - Zuleika citou o provrbio. - Deixe os jardineiros por minha conta. J falei com o chef sobre o jantar desta noite. Voc no ficar surpreso se eu disser que no h no palcio, criados suficientes para servirem  mesa. Sugeri ao mordomo que contrate garons extras.
- De facto, no me surpreendo - respondeu o conde, rindo. - Espero que o jantar esteja bem melhor do que o de ontem.

- Descobri que o chef  francs.
- Isso me alegra. Agora olhe ao redor. O que acha da sala? Est bonita?
A princesa terminara de fazer um lindo arranjo de flores sobre a coruja da lareira e ao redor do estrado no qual estava o piano de cauda e onde ficariam os msicos.
- Falta alguma coisa ao fundo do tablado - Zuleika deu sua opinio. - Ali ficaria bem um grande arranjo com folhagem como palmeiras e aspidistras, alm de flores, claro.
- Eu tambm estava achando aquela parte muito vazia - a princesa concordou. - Gostei da sua sugesto. Vou pedir mais folhagens; flores ainda h bastante.
O conde tocou a campainha e um dos lacaios apareceu alguns minutos depois, o que para Zuleika no era aceitvel. Na sua opinio um criado em servio devia atender ao chamamento imediatamente.
- Traga at aqui o jardineiro-chefe e outro jardineiro. Depressa! - o conde ordenou com inequvoca autoridade.
O homem pareceu alarmado e pouco depois praticamente corria pelos corredores.
Zuleika riu.
- Se continuarmos assim, deixando todos em polvorosa e com tanta movimentao, corremos o risco de ver o tecto desabando sobre nossas cabeas.
- Nem fale nisso. J notei que h rachaduras nas paredes - observou o conde.
Zuleika riu novamente, mas reconheceu que a situao no era nada cmica.
A princesa Adele estava distrada, arrumando botes de rosas em um vaso e o conde segredou a Zuleika:
- Estamos correndo contra o tempo e isso me assusta.
- Sei disso. Minha esperana  nos mantermos um lance  frente do inimigo e venc-lo pela inteligncia, j que no podemos super-lo com armamento e soldados.
- Bem, de minha parte, amo um desafio e uma luta, adorvel princesa. Sei que venceremos - declarou o conde com veemncia.
Naquela poca do ano escurecia muito tarde. A princesa terminara de arrumar o vaso e ao coloc-lo sobre um mvel ficou iluminada pelo sol que entrava por uma das janelas. Vendo-a to adorvel usando um dos vestidos novos, Zuleika reflectiu que seria terrvel se os prussianos tomassem o pas.
Se no a matassem, ela e o prncipe Majmir seriam exilados e viveriam na misria em algum pas estranho. Notando que o conde tambm olhava para a princesa com admirao, disse suavemente:
- Temos de vencer por amor a ela.
- Era nisso que eu estava pensando - o conde murmurou. - Adele no tem mais ningum,, excepto um pai alcolatra. E agora, ela pode contar com voc, o que  uma bno de Deus. 
- Voc no inclui a si prprio. Nestas vinte e quatro horas voc fez por Krnov e pela princesa o que ningum fez em muitos anos. - Movida pelo entusiasmo Zuleika acrescentou: - H muito o que fazer e, como eu disse, venceremos pela inteligncia.
A princesa Adele aproximou-se deles.
- A meu ver, s falta melhorar o arranjo do fundo do tablado com mais folhagens - disse. - O que vocs acham da sala?
- Est linda! - Zuleika aprovou.

- Ficar ainda mais encantadora na hora do baile com a sua presena - completou o conde. - Voc deslumbrar seus convidados e quando eles forem para casa tero o que falar.
- Devo tudo a vocs dois. Ambos tm sido maravilhosos! Como conseguiram fazer com que acontecessem coisas to emocionantes? - falou a princesa, vibrando de alegria.
- Isto  s o comeo - declarou o conde. - Mas o sucesso do baile vai depender de voc. Sorria para todos e faa-os sentirem que jamais passaram uma noite to sensacional.
- Ser que vou conseguir? - duvidou a princesa. - Receio no ser boa anfitri.
- No precisa ficar nervosa. Lembre-se de que para os jovens que viro aqui esta noite bastar a empolgao de terem sido convidados para uma festa no palcio, coisa que no acontece h muito tempo.
O lacaio que havia sado poucos minutos atrs estava de volta com trs jardineiros. O conde adiantou-se e perguntou quem era o chefe. O mais velho dos trs, aparentando quarenta anos, apresentou-se.
- Preciso da sua ajuda - pediu o conde. - A princesa Zuleika e eu chegamos ontem a Krnov e notamos que este lindo palcio tem sido negligenciado. Os cmodos so sombrios, tristes e, em sua maioria, ficam fechados. O que nos encantou foram os jardins. Vocs so competentes.
O jardineiro-chefe endireitou os ombros, satisfeito. O conde prosseguiu:
- O que lhes vou pedir no ser muito fcil de ser feito, mas sei que vocs no me desapontaro.
- O que , senhor? - indagou o jardineiro-chefe.
- Vocs tm cerca de duas horas para enfeitar a entrada do palcio, corredores e todos os cmodos que estaro abertos aos convidados. Esta sala j est pronta, excepto a parte de trs do estrado e os cantos que devem ser completados. Precisamos de folhagem como folhas de palmeira, de aspidistra ou outra  sua escolha.
Era evidente a inquietao dos jardineiros. Um tanto receoso o chefe disse:
- Faremos o possvel, senhor, mas no creio que haja nos jardins, estufas e viveiros, tantas flores e plantas.
- Se for necessrio, comprem vasos de folhagens para os corredores - sugeriu o conde. - Deve haver floriculturas na cidade.
- Comprar plantas! - exclamou o jardineiro-chefe.
- S dei uma sugesto. Mas no hesitem em comprar plantas se acharem que isso  preciso. Providenciarei o pagamento - o conde prometeu. - Confio na arte de vocs e sei que deixaro o interior do palcio to lindo por dentro como  por fora. O trabalho que realizarem ser elogiado, o que ser excelente para a reputao de vocs, como jardineiros.
O jardineiro-chefe sorriu, lisonjeado.
- Eu s queria ter um pouco mais de tempo, senhor.
- Vocs tero a oportunidade de mostrar melhor o seu talento na semana que vem. Haver no palcio um grande baile em homenagem  Sua Alteza Real, a princesa Adele - avisou o conde.
- Um grande baile! - repetiu o jardineiro-chefe boquiaberto.

- Nessa ocasio usaremos o salo de baile e a, sim, precisaremos de flores e mais flores - frisou o conde. - Bem, esto dispensados. Lembrem-se que h muito tempo no h festas no palcio e queremos impressionar nossos convidados.
Os trs saram da sala apressados. Zuleika, que se mantivera calada, elogiou o conde:
- Voc foi brilhante! Soube apelar para os brios dos jardineiros.
- Vocs esto se empenhando tanto e exigindo o mximo de todos para que o jantar e o baile sejam um sucesso... mas... e se ningum aparecer? - indagou Adele, temerosa.
Zuleika e o conde riram.
- Todos os convidados viro! - afirmou o conde. - Pode ter certeza de que os poucos convites que os secretrios redigiram e mandaram foram recebidos e aceites com euforia. H pessoas mortificadas porque no foram includas na lista dos privilegiados.
- Ainda bem - a princesa suspirou.
- Voc deve agradecer ao secretrio particular de seu pai que conhece todas as pessoas distintas de Krnov e organizou essa lista - acrescentou o conde. - Agradea tambm a todos que o ajudaram.
- Devo ir agradecer-lhes agora?
- Eles ficaro felizes se voc for at eles.
Compenetrada, a princesa foi at  porta, mas antes de sair parou e voltou-se para o conde.
- Devo apertar a mo de todos?
- Ser uma grande honra para eles. Isso  uma coisa que voc far muito no futuro.
A princesa afastou-se e o conde comentou:
- Ela  adorvel e inocente.
- Temos de salv-la e orient-la - Zuleika murmurou. Uma ruga na testa demonstrava a sua preocupao.
- No sei como uma garota como ela, sem experincia e nada sabendo do mundo ser capaz de governar seu pas. Espero que o prncipe Majmir no morra to cedo; mesmo sendo intil, dadas as condies em que se encontra, sua presena  necessria.
Por um instante Zuleika pensou que se os prussianos tomassem Krnov a princesa Adele jamais subiria ao trono.
Lembrando-se do que Pieter Seitz lhe dissera no jardim, um estremecimento percorreu-lhe todo o corpo.
Imaginou que um gigante caminhava na direco deles e nada os salvaria de serem agarrados e esmagados por sua mo descomunal.
O que poderiam ela e o conde fazer? O esforo de ambos era muito pequeno perante o poder e a fora blica dos prussianos.
Sem dvida, eles precisavam de um milagre.
Em silncio, mas do fundo do corao, Zuleika orou com fervor:
Ajude-nos, meu Deus! S o Senhor pode nos salvar!

CAPTULO V

Zuleika respirou aliviada. Tivera tanto medo de que, no ltimo instante, alguma coisa sasse errada, mas o baile estava sendo um sucesso e o jantar havia sido bem melhor do que ela esperava.
O conjunto musical era pequeno, mas animado e tocava todas as msicas em voga. At a noite estava linda e a luz brilhava no cu.
As janelas e duas portas abriam-se para o jardim. O conde conseguira, com muita habilidade e a ajuda de criados, pendurar lanternas nas rvores e colocar pequeninas lanternas de vidro colorido ao redor da fonte.
A princesa Adele, alm de encantadora, estava felicssima e seus olhos brilhavam como estrelas. Os rapazes faziam o possvel para que ela lhes reservasse uma dana.
 uma hora o conde deu o baile por encerrado.
- Oh, mas  to cedo! - Adele queixou-se. - No podemos continuar?
- No. Temos muito trabalho amanh - replicou o conde. - Lembre-se de que haver um baile de gala em sua homenagem na prxima semana.
- Se esse outro baile for to sensacional como o desta noite, vou divertir-me a valer - a princesa alegrou-se. - Obrigada por tudo. Voc est sendo maravilhoso.
- Voc merece muito mais. Estou orgulhoso por ter feito tanto sucesso. Como eu previa, os jovens cavalheiros aclamaram-na a "Bela do Baile" - apontou o conde.
- A "Bela do Baile"! - festejou Adele. - Devo tudo a voc e, naturalmente,  princesa Zuleika.
Os msicos tocaram o Hino Nacional de Krnov. Terminada a execuo todos se despediram, relutantes.
- Foi uma noite maravilhosa - disseram os convidados, um aps outro.
Por fim s ficaram na sala as princesas e o conde.
- Tive receio de que alguma coisa no desse certo, mas tudo saiu perfeito, alm das expectativas - Zuleika falou, satisfeita. - Comeo a acreditar que voc tem poderes mgicos.
- Eu no duvido que voc seja um mago - reiterou Adele. - Desde que chegou ao palcio tudo se transformou, num passe de mgica.
Zuleika olhou para o conde e ambos pensaram a mesma coisa: Quanto tempo iria durar aquele clima de euforia?
At quando poderiam eles alegrar a princesa e manter a paz?
Os trs subiram para outro andar onde ficavam seus aposentos. Depois de dar um beijo de boa noite em Zuleika a princesa abraou o conde com a espontaneidade de uma criana e agradeceu:
- Obrigada! Obrigada! Por mim eu ficaria dizendo isso mil vezes!
O conde beijou-a no rosto e ela correu para o quarto.
- Ningum pode ser mais adorvel nem mais agradecida - Zuleika disse ao conde.
- E eu estou muitssimo grato a voc - ele falou por sua vez. - Eu temia que o jantar fosse um fracasso, mas esteve excelente.

- Esperamos ter o mesmo sucesso nas demais festas que pretendemos oferecer. Agora devemos dormir - Zuleika aconselhou. - No ritmo em que estamos indo precisamos de nossas energias e de nossa presena de esprito.
-  verdade. Boa noite e Deus a abenoe.
Em seu quarto Zuleika reflectiu que o conde tinha inmeras qualidades: era muito inteligente, habilidoso e amvel. Uma pena que, como o filho mais novo do arquiduque, Franz nunca iria herdar o ttulo de nobreza do pai, nem suas propriedades; tudo iria para o irmo mais velho.
"Com o seu talento Franz encontrar algo que fazer", pensou Zuleika entrando no quarto onde Marla a aguardava para ajud-la a trocar-se.

Eram oito horas quando Marla chamou Zuleika. Ela acordou com a sensao de ter dormido apenas uma hora.
Porm o sol que entrava pela janela cujas cortinas a criada acabara de afastar, revelava que j era tarde e ela prometera cavalgar com a princesa, o conde e os oficiais. No iria perder o passeio por nada.
A princesa apareceu no quarto de Zuleika usando um dos conjuntos de montaria que havia comprado e esperou a amiga terminar de arrumar-se.
Como na vspera, galoparam pela plancie, mas no foram to longe porque haviam sado mais tarde para o passeio.
Na volta para o palcio a princesa foi  frente, escoltada pelos oficiais, e o conde ficou para trs com Zuleika.
- Voc descobriu mais alguma coisa? - ela quis saber.
- Descobri e no tenho boas notcias - respondeu o conde.
- O que aconteceu?
- Mandei meu valete  cidade e ele ouviu dizer que h soldados prussianos do outro lado da fronteira, ao sul.
- Ao sul! - Zuleika repetiu, atnita. - Nesse caso eles esto a poucas milhas da cidade e do palcio! Voc acha que eles pretendem invadir a capital!
- Acredito que sim - o conde opinou. - Eles no estariam ali por outra razo.
- O que podemos fazer?
- Ainda estou tentando organizar minhas idias. Se pusermos os soldados de que dispomos cercando ostensivamente a cidade, os habitantes entraro em pnico. Por outro lado, se deixarmos a cidade desguarnecida, os prussianos a tomaro sem encontrar resistncia.
- Ento, que podemos fazer?
- S posso pedir para voc rezar - respondeu o conde para surpresa de Zuleika.
Sem dizer mais nada ele esporeou o cavalo e afastou-se a galope.

A manh parecia arrastar-se. Nunca em sua vida Zuleika sentira tanto medo. Depois do que o conde lhe revelara ela imaginava que s mesmo um milagre salvaria Krnov.
A princesa Adele, ao contrrio, estava radiante e no fazia idia de que alguma coisa pudesse destruir sua felicidade. Falou empolgada sobre o baile da vspera, sobre os preparativos para o grandioso baile e exps suas idias sobre a decorao do salo.

Havia ainda muitas coisas para a princesa comprar, entre elas bonitas camisolas e roupas ntimas enfeitadas com rendas, mas para Zuleika isso pareceu to sem importncia, uma vez que Adele e o pai, provavelmente, teriam de fugir do palcio para salvar a vida, deixando tudo para trs.
Sabendo, entretanto, que de nada adiantava sofrer por antecipao, Zuleika forou um sorriso e participou da alegria da princesa. Depois do almoo foram fazer compras.
A caminho das lojas, no cabendo em si de ansiedade, Zuleika pediu ao cocheiro que parasse em frente do prdio do Parlamento.
Disse  princesa que estaria de volta dentro de alguns minutos, portanto, no havia necessidade de ela descer. Adele no protestou; era sempre muito meiga e aceitava o que lhe fosse sugerido.
Para alvio de Zuleika o primeiro-ministro pde atend-la e estava sozinho.
- Fiquei sabendo que sua festa ontem  noite foi um grande sucesso - disse o primeiro-ministro depois de cumprimentar Zuleika.
-  verdade. Foi alm das nossas expectativas. Receio, porm, que jamais possamos oferecer outra festa no palcio - Zuleika falou, apreensiva. - Certamente o conde j esteve aqui para falar-lhe sobre o que est acontecendo na fronteira, ao sul.
- Sim, j fui informado sobre isso. As tropas de que dispomos esto de prontido e o conde mandou um mensageiro a Opava para pedir ajuda a seu pai, Alteza.
- O senhor refere-se a reforos? No seria perigoso tropas de Opava se deslocarem para c? - Zuleika perguntou. - Se os prussianos souberem que o senhor est ciente do que eles esto fazendo, podem atacar a cidade mais cedo do que pretendiam.
- Asseguro-lhe que no estamos cometendo nenhuma insensatez, Alteza - o primeiro-ministro falou em tom tranquilizador. - Tambm no pretendemos demonstrar que receamos alguma aco dos prussianos contra ns.
- Mas o senhor sabe, naturalmente, que eles j se infiltraram na cidade - Zuleika insistiu.
- Sim, claro. Tenho homens de inteira confiana observando-os. Recebo informaes constantes sobre o que eles planeam e sei onde se renem secretamente.
- Vejo que estou nervosa sem motivo. Minha maior preocupao  com a princesa Adele. Eu sofreria muito se algo lhe acontecer. Ela est to radiante e fascinada com este mundo novo que se abriu  sua frente. Nem posso imagin-la exilada do seu pas, sem apoio, sozinha, excepto com o pai.
-  justamente isso que desejamos e vamos evitar! - enfatizou o primeiro-ministro. - Para ser franco, deposito inteira confiana no conde. Jamais conheci um jovem to inteligente e to cheio de idias em situaes de emergncia.
- Tambm confio nele. Creio que o conde encontrar um meio de nos defender. Perdoe-me por ter vindo aborrec-lo com minha apreenses - Zuleika desculpou-se e levantou-se da cadeira. 
- Vossa Alteza  bem-vinda a qualquer hora. Na verdade eu a aguardava. - O primeiro-ministro tambm ficou de p. - Continue com o trabalho excelente que vem realizando no palcio e transforme a nossa princesa numa beldade. Todos j esto falando a respeito dela.

O primeiro-ministro acompanhou Zuleika at a carruagem e surpreenderam-se quando viram a princesa Adele no gramado que cercava o prdio do Parlamento, conversando com algumas crianas. Suas mes se achavam a pouca distncia dali, observando-as.
Ao ver o primeiro-ministro e Zuleika, a princesa falou com seu entusiasmo natural: 
- Estas crianas estavam brincando e vim at aqui para v-las de perto. Os garotinhos do cambalhotas sensacionais e as meninas pulam corda cem vezes, sem parar.
- Sei que Vossa Alteza  excelente amazona! - O primeiro-ministro aproveitou a ocasio para elogiar a princesa. - Tambm fui informado que ir participar de uma corrida.
- Eu gostaria muito de tomar parte numa corrida - tornou a princesa - mas no sei se devo. Nenhuma mulher at hoje participou de corridas aqui em Krnov.
- Por que no ser a primeira? Vossa Alteza j est introduzindo tantas coisas novas no pas - alegou o primeiro-ministro.
A princesa riu.
- Devo tudo a Zuleika e ao conde. Nem sei como lhes agradecer.
- De minha parte j lhes expressei meus agradecimentos. Estou muito feliz por ver que Vossa Alteza procura ser conhecida dos cidados.
O primeiro-ministro olhou ao redor e notou que as crianas haviam parado de brincar e olhavam cheias de curiosidade para eles trs.
- Esta jovem lady  a princesa de vocs - disse ele  garotada, estendendo a mo para indicar Adele. - Agora a princesa Adele precisa partir e vocs devem acenar-lhe.
Tmidas a princpio, as crianas apenas acenaram para Adele com a mo. Quando ela e Zuleika subiram na carruagem a garotada acenou-lhes e deu vivas de alegria.
A carruagem distanciou-se e Adele consultou Zuleika:
- Fiz mal em descer da carruagem para ver as crianas?
- Voc agiu correctamente - louvou Zuleika. - Faa isso sempre que puder. Quando eu era pequena costumava falar com as pessoas que nos visitavam no palcio e sempre que eu ia com mame  cidade as pessoas nos saudavam com acenos e vivas.
- Ningum me sada no presente - Adele queixou-se.
- Mas saudaro no futuro - afirmou Zuleika. - S agora o povo est conhecendo a sua princesa. Demonstre que voc se preocupa com os cidados de Krnov e que eles so importantes para voc.
- Mas isso  verdade - enfatizou a princesa. -  claro que s quero o bem de todos, mas nunca pude demonstrar o que sinto, pois eu no tinha permisso de sair do palcio.
- Agora voc ter inmeras oportunidades de apresentar-se em pblico, de ver o povo e falar com as pessoas.
Ao dizer isso Zuleika desejou que de facto acontecesse.
O dia anterior transcorreu sem novidades e foi uma repetio do dia que o precedera.
Nessa manh, depois do habitual passeio a cavalo e do breakfast, Zuleika foi  biblioteca e Adele foi ao jardim. Depois do almoo quis comprar sapatos de salto alto. De volta ao palcio, Zuleika desejou que tudo estivesse calmo.
Adele subiu para tirar o chapu e surpreendeu-se ao ver a governanta  sua espera para apresentar-lhe sua criada pessoal.
Zuleika no quis subir. Saiu do palcio por uma porta lateral e foi para o jardim. Sempre que tinha alguma preocupao nada a tranquilizava mais do que o contacto com a natureza.

Atravessou o gramado, caminhou beirando uma sebe de arbustos e chegou a uma cascata que ficava atrs do palcio. Suas guas desciam coleantes pelo lado do jardim, atravessavam o parque e continuavam fluindo alm dos limites do palcio.
Havia bancos entre as rvores e Zuleika sentou-se  sombra, distrada ouvindo o murmrio das guas, o canto dos pssaros e admirando a beleza das flores.
Lembrando-se de que era hora do ch, retomou o caminho de volta para o palcio com a esperana de ver o conde. Precisava saber o que estava acontecendo.
Andou um pouco e viu um homem atravessando o gramado e vindo ao seu encontro. Ofuscada pelo sol, imaginou que aquele era um dos oficiais amigos do conde.
Ao v-lo mais perto Zuleika notou que se enganara. No conhecia o cavalheiro. Ele era alto, muito bonito, tinha ombros largos, cabelos escuros, testa ampla e franca, feies clssicas.
No era, certamente, krnoviano, tampouco se parecia com os habitantes de Opava.
Quem poderia ser?
Foi a pergunta que Zuleika fez a si prpria.
O estranho sorriu para ela e estendeu-lhe a mo.
- Estou me questionando se voc  a princesa Adele ou a princesa Zuleika.
- E eu me perguntava, ao v-lo se aproximando, quem seria voc - disse Zuleika com um sorriso. - Sou a princesa Zuleika.
O estranho segurou a mo de Zuleika e ela sentiu vir dele uma vibrao diferente que nunca sentira ao tocar outra pessoa.
- Sou Vaslov e acabo de chegar de Cieszyn - o cavalheiro apresentou-se.
- O prncipe Vaslov! - Zuleika exclamou. - O que o trouxe aqui?
- Imaginei que talvez precisem de mim - respondeu de modo evasivo. - A propsito, ouvi dizer que vocs esto organizando uma corrida de cavalos para muito breve.
- Como voc pode ter ouvido falar sobre essa corrida? - Zuleika estranhou. - A notcia no pode ter chegado a Cieszyn!
- Conversei com seu pai e ele falou-me sobre o motivo de voc estar aqui e sobre a sua preocupao com Krnov.
- Ento voc pode imaginar que a situao deste principado  sria.
- Serssima. Sei que um conde austraco a acompanhou como seu ajudante-de-ordens. Tenho um plano em mente que poder salvar o principado, portanto, quero ver o conde o mais depressa possvel.
- Oh, por favor, diga-me do que se trata - Zuleika pediu, ansiosa. - O conde e eu estamos muito apreensivos, mas no sabemos o que fazer.
- Ento oua, princesa - pediu o prncipe. - Fui informado sobre a festa realizada no palcio, dois dias atrs, estou sabendo que haver um grandioso baile na semana que vem e tambm que est sendo organizada, para grande alegria do povo de Krnov, uma corrida de cavalos. Pois bem, minha idia  contribuir para que haja na cidade um evento popular grandioso. Um Torneio Real.
- Torneio Real? - Zuleika repetiu, parecendo confusa.

- Sim, um torneio como os que h na Inglaterra anualmente. O Exrcito d uma demonstrao de suas habilidades com marchas, bandas militares e, claro, uma demonstrao do uso de armas - explicou o prncipe.
- Ah, sim! Meu pai j me falou sobre esses torneios que despertam grande interesse por parte do pblico - Zuleika lembrou-se.
- Exactamente. Se houver um torneio desse tipo em Krnov, o evento no apenas despertar o interesse dos habitantes do principado, como daqueles que esto do outro lado da fronteira,  espreita, atentos a tudo o que se passa aqui.
-  isso que nos preocupa - observou Zuleika, entendendo a quem o prncipe se referia.
- Meu plano  trazer para a cidade trezentos dos melhores soldados com nossas melhores armas, desde que haja acomodao para todos - exps o prncipe.
- Trezentos soldados!
- Poder haver ainda mais se contarmos a banda militar. Bem, o nmero ser decidido depois que eu falar com o conde Franz e souber onde poderemos montar nossas barracas.
- Acredito que voc nos salvar - Zuleika falou suavemente. - Se Krnov cair nas mos do inimigo a independncia de Opava e Cieszyn tambm estar ameaada.
- Quando seu pai me advertiu que devamos salvar Krnov, compreendi que eu havia sido negligente em no ter tido, h mais tempo, conscincia do que ocorria aqui - admitiu o prncipe Vaslov.
- Como poderamos adivinhar que a situao em Krnov era to grave? O prncipe Majmir no mantinha boas relaes com os vizinhos e no nos convidava para visit-lo - Zuleika argumentou. - Felizmente, esse novo primeiro-ministro tem conscincia do perigo que o pas corre e pediu-me para vir at aqui como dama de companhia da princesa Adele.
- Sei que o actual primeiro-ministro  um homem sensato e confivel - observou o prncipe.
- Essa tambm  a minha opinio e o conde Franz  absolutamente maravilhoso. Ambos tentam salvar Krnov, mas o Exrcito praticamente no existe. Agora, com a chegada dos seus soldados, tenho certeza de que os prussianos ficaro  distncia. Essa demonstrao de fora nos manter em segurana durante o tempo necessrio para tornarmos o Exrcito mais eficiente do que  no momento - Zuleika raciocinou.
- Vocs podem contar com as minhas tropas de elite, mas  claro que poderei enviar mais reforos caso haja necessidade disso. - O prncipe Vaslov olhou ao redor para certificar-se de que no podiam ser ouvidos e acrescentou: - Nossos inimigos no podem saber que j descobrimos quais so as suas intenes.  muito importante que eles pensem que estamos apenas festejando os dezoito anos da princesa Adele, a herdeira do trono.
- Como voc sabe at desse detalhe? - Zuleika surpreendeu-se.
- Aprendi a manter os ouvidos abertos! Agora interesso-me pelos meus vizinhos e fico muito curioso para saber de tudo o que eles fazem, inclusive o que faz a linda princesa de Opava.
Zuleika sorriu.
-  estranho que tenhamos nos conhecido s agora e em circunstncias to inusitadas.
- Viajei muito enquanto meu pai era vivo. Agora que me tornei o soberano de Cieszyn, estou determinado a no permitir que os prussianos nos roubem a liberdade, custe o que custar.

O prncipe Vaslov ficou um instante pensativo, depois acrescentou:
- Creio que devo ser fraco com voc e revelar-lhe qual  a soluo definitiva para o problema de segurana de Krnov.
- Se voc tem a soluo, por favor, diga qual  - instou Zuleika. - O conde e eu temos estado muito aflitos pensando no destino de Krnov. A princesa Adele  muito suave, mas no vejo como ser possvel ela governar sozinha este pas.
-  justamente por isso que decidi desposar a princesa Adele e unir Krnov e Cieszyn. Afinal, os dois principados fazem fronteira um com o outro.
Zuleika encarou o prncipe, atnita.
- Voc... pretende casar com... Adele?
- No a conheo pessoalmente, mas j ouvi falar muito a seu respeito. Sei que ela  linda e ser uma esposa dcil, enquanto que eu governarei os dois principados e assegurarei a nossa independncia. Tanto voc como eu sabemos que para um soberano o pas vem em primeiro lugar.
- Compreendo... De facto ser uma forma definitiva, como voc colocou, de salvar Krnov - Zuleika concordou. - Tenho certeza de que voc far tudo para Adele ser feliz.
-  claro que sim. Tem minha palavra - o prncipe falou em tom solene. - Agora eu gostaria de conhecer a minha futura esposa.
- Devo preveni-lo de que Adele no tem experincia alguma do mundo aqui de fora e no faz idia do perigo que paira sobre Krnov. Ela tambm no conhecia rapazes at ns chegarmos. Antes de ontem foi a primeira vez que ela danou num salo com um cavalheiro e no na sala de aula com seu professor ou professora de dana.
- Noutras palavras, voc est querendo dizer para eu no assust-la. Mas no se preocupe, terei muito tacto e serei muito gentil; quero que Adele tambm compreenda que o nosso casamento e a unio dos dois principados assegurar a independncia de Krnov, Opava e Cieszyn.
- No resta dvida que essa  a melhor soluo para o problema de segurana de Krnov - Zuleika concluiu. - Acredito que voc ver o conde no palcio. Ele costuma tomar ch connosco. Ento vocs podero conversar sobre suas idias e seus propsitos e saber tambm onde poder armar as barracas para os soldados.
- Quero ter as tropas bem perto do palcio - pediu o prncipe - Isso  muito importante porque meus soldados devem proteger duas vidas muito preciosas.
Sabendo que ele se referia a ela e a Adele, Zuleika sorriu.
- Voc  linda - declarou o prncipe inesperadamente. - Por que  que no a conheci antes?
- Voc j respondeu a essa pergunta anteriormente: porque esteve viajando pelo mundo. E eu, claro, ainda estava nos bancos escolares. Dessa forma nunca fui a Cieszyn quando meus pais visitaram os seus.
- Uma resposta convincente - disse o prncipe, rindo. - Mas, realmente, foi uma pena no nos encontrarmos antes. Alm de bonita, voc  muito inteligente, decidida e dinmica. Depois de saber o que voc fez aqui nestes poucos dias, percebo quanto tempo perdi por no t-la conhecido h muito tempo.
- Bem, no  tarde para recuperar o tempo perdido. Mas no entendo como voc sabe de tudo o que aconteceu aqui desde que eu cheguei.
- Tenho os meus espies - o prncipe disse francamente.

- Espies! Quer dizer...
- Quero dizer que de uns tempos para c tenho estado atento ao que est acontecendo em Krnov - o prncipe interrompeu-a. - Felizmente, no  tarde demais para salvar este principado.
Eles chegaram ao palcio e Zuleika conduziu o prncipe ao Salo Azul onde o ch costuma ser servido.
Foi sem a menor surpresa que Zuleika encontrou Adele conversando animadamente com o conde. Este, ao ver quem acompanhava Zuleika, ficou de p e imediatamente exclamou, feliz:
- Vaslov! De onde voc surgiu? Eu estava perguntando a mim mesmo se no chegara o momento de mandar cham-lo.
- Eu sabia que precisavam de mim - respondeu o prncipe. - Cheguei com um entourage que o deixar maravilhado.
- Maravilhado? Por qu?
- Trezentos homens para tomar parte em um Torneio Real que vamos organizar - informou o prncipe.
-  exactamente o que precisamos! - exclamou o conde, eufrico. - S mesmo voc, Vaslov, para aparecer de repente e trazer um barco salva-vidas quando mais precisamos dele.
- Bem, o barco salva-vidas ainda est a caminho, mas h lugar para todos nele - brincou o prncipe.
S ento ele notou que Adele fitava-o muito surpresa e dirigiu-se a ela.
- Perdoe-me, Alteza, por ter ficado conversando com meu velho amigo Franz e no me apresentar.
- Sei que voc  o prncipe Vaslov de Cieszyn - Adele adiantou-se. - Sempre tive muita vontade de conhec-lo.
- Bem, agora nos conhecemos e certamente nos veremos muitas vezes nos prximos dias.
Zuleika serviu o ch e ao entregar a xcara ao prncipe olhou-o de modo a lembr-lo para no alarmar a Adele. Ele captou a mensagem e perguntou:
- Vocs esto organizando um grande baile e ma corrida, no?
- Sim - respondeu o conde. - As providncias para o baile e as corridas j esto sendo tomadas. Estamos correndo contra o tempo.
- Bem, arranje tempo de pensar onde posso acomodar meus homens. Uma parte chegar no comeo da noite e o resto amanh cedo. Tive a idia desse Torneio Real para homenagear a princesa Adele.
- Um torneio em minha homenagem! Muito obrigada - Adele agradeceu, encantada. - Nunca houve um torneio desses aqui em Krnov.
- Este ser o primeiro de muitos outros. Sei que o povo vibrar com a novidade - disse o prncipe.
- Somos muito gratos ao prncipe por ter vindo com seus homens para o torneio, justamente quando o conde j estava sem inspirao e sem idias - Zuleika falou num tom provocativo.
- Voc est me ofendendo - o conde queixou-se. - Idias no me faltam, mas aprendi que se deve fazer uma coisa de cada vez.
- O amigo Franz tem razo - o prncipe veio em defesa do conde. - Agora  a vez de ele concentrar-se nos preparativos do grandioso baile. Se o primeiro foi um sucesso, imagino como no ser este outro!
- Foi uma pena voc no estar presente ao baile - lamentou Adele.

Observando o prncipe e Adele enquanto conversavam, Zuleika reflectiu que ambos pareciam estar apreciando muito a companhia um do outro.
"Ele saber faz-la feliz", pensou.
Ao mesmo tempo, no aprovava casamentos arranjados ou por interesse. Passou-lhe pela mente que o prncipe e Adele talvez se apaixonassem um pelo outro.
A princesa era linda. O vestido cor-de-rosa que usava no momento realava-lhe os cabelos negros e a pele alva. Mas o que encantava nela era aquela meiguice e sua simplicidade quase infantil.
Inexperiente como era, Adele precisava mesmo de um marido como o prncipe Vaslov que, apesar de jovem, pois completara vinte e sete anos, conhecia o mundo, era inteligente e capaz de governar os dois principados.
"Sim, eles sero felizes", Zuleika concluiu o pensamento.
O que a surpreendeu a seguir foi ver o conde com expresso de desagrado, a testa franzida. O que o estaria preocupando?, ela questionou-se.
Seu o problema mais angustiante estava resolvido com a chegada do prncipe Vaslov e seus trezentos soldados, pois os prussianos no se aventurariam a enfrentar tropas bem armadas. Eles no esperavam grande resistncia do Exrcito de Krnov, muito menos dos cidados.
A intuio de Zuleika, ou seu "terceiro olho", a fazia pressentir que o inimigo planeava ir-se infiltrando aos poucos na cidade e, em dado momento, tomaria os prdios do Parlamento e o palcio. Os membros do governo seriam presos ou mortos, seriam exilados.
A chegada do prncipe Vaslov iria dificultar a estratgia dos prussianos.
Zuleika deixou de lado suas divagaes e levantou-se da mesa.
- Espero que Vossa Alteza Real jante connosco - ela convidou o prncipe. - Quantas so as pessoas do seu entourage?
- Quatro oficiais. Mas eu gostaria de saber se posso hospedar-me no palcio - o prncipe questionou.
- Naturalmente, Alteza - Zuleika afirmou com veemncia. - Jamais me ocorreu que houvesse dvida a esse respeito. Estamos felizes e honrados com a sua presena neste palcio.
- Devo acrescentar que s um gnio como voc para ter a idia desse torneio - disse o conde.
- Ser um sucesso! Nosso povo vibrar com o torneio e tambm com as corridas - Adele falou empolgada.
- Fao questo de participar das corridas e antecipo que vencerei todas as modalidades - o prncipe vangloriou-se.
- No  justo! - protestou a princesa. - Quem est organizando as provas  Franz e ele pretende vencer a grande corrida.
- Veremos! - tornou o prncipe. - No ouvi vocs falarem em prmios. O que ser oferecido aos vencedores das provas?
- No pensei em prmios. Mas como foi voc quem deu essa idia, aceito a sua contribuio - retrucou o conde.
- Quem faz perguntas tolas, ouve respostas tolas. Por que  que eu no fiquei calado? - O prncipe suspirou. - Est bem, Franz. Ofereo uma taa de ouro ao vencedor da corrida principal ou outro prmio  sua escolha. Mas prepare-se, porque farei o possvel para ser o vencedor.
- Tambm farei o possvel - replicou o conde.
Os dois amigos no se contiveram e comearam a rir.

- Ns poderamos danar depois do jantar ao som do piano - Adele sugeriu.
Zuleika olhou para o conde. 
- Voc ouviu a sugesto, Franz?
- Ouvi, mas h mais cavalheiros do que ladies. - O conde voltou-se para o prncipe. - A no ser que o amigo Vaslov conhea algumas ladies, os oficiais sero um par do outro.
Zuleika reflectiu um pouco e decidiu:
- O baile ficar para amanh. Podemos jogar cartas depois do jantar.
Todos concordaram com a idia.
O prncipe afastou-se com o conde e foram escolher o terreno onde seria possvel armarem as barracas. As duas princesas subiram para seus aposentos.
- Venha comigo at meu quarto - pediu Adele segurando a mo de Zuleika. - Ajude-me a escolher um vestido para eu usar esta noite.
 - Ajudo, claro. Mas diga-me, o que voc achou do prncipe Vaslov? Naturalmente voc quer ficar linda para ele, no? - Zuleika perguntou, querendo ouvir a opinio da princesa sobre seu futuro marido.
- Vaslov  muito bonito, gentil, simptico, mas  velho para mim. Eu aprecio muito mais da companhia de Franz, gosto do seu jeito de ser, do modo como ele fala comigo e adoro danar com ele!

CAPTULO VI

O chef, posto em brios e tendo ajudantes, apresentou no jantar pratos requintados e deliciosos.
Quando todos deixaram o salo de jantar, os oficiais, o prncipe Vaslov e Anton Bauer quiseram verificar se os homens haviam terminado de armar as barracas e se estavam confortveis.
Por sugesto do conde, os soldados que haviam chegado no comeo da noite - cerca de cem - ocuparam uma rea ampla de terreno ao redor do palcio, alm dos limites dos jardins.
A princesa Adele receara que o pai se zangasse
- O prncipe compreender que precisamos ter os soldados perto do palcio, caso contrrio haver necessidade de carroas e cavalos para chegarmos at eles - argumentara o conde.
Ouvindo isso Zuleika dirigira a ele e ao prncipe Vaslov um olhar de advertncia. A princesa Adele ainda no sabia que as tropas estavam ali para defender a cidade de um possvel ataque dos prussianos.
As princesas e o conde conversavam no Salo Azul quando Anton Bauer apareceu e relatou-lhe o que estava acontecendo no acampamento improvisado.
- Os soldados esto bem acomodados nas barracas, mas o prncipe Vaslov quer saber se os oficiais que j chegaram e os que chegaro amanh cedo podero ocupar uma das alas do palcio - ele perguntou a Adele.
- Fale com o camareiro-mor - a princesa aconselhou-o.
- O palcio est praticamente vazio e o camareiro-mor no poder apresentar dificuldade alguma para acomodar os oficiais - alegou Zuleika. 
De facto, o camareiro-mor no teve alternativa e concordou, embora a contragosto, em receber mais hspedes.
Foi a vez do prncipe Vaslov entrar no salo, contente por estar tudo arranjado.
- Agora quero pedir  princesa Adele para receber a banda militar que chegar amanh cedo, seguida de mais duzentos soldados.
- Voc ficar no palanque que meus homens esto erguendo na praa principal. Os soldados entraro na cidade marchando e se formaro  frente do palanque.
- E o que devo dizer? Nunca fiz um discurso... para o povo - assinalou a princesa, receosa.
- Est na hora de aprender a falar em pblico; voc ser capaz - o prncipe incentivou-a. - Amanh bastar voc expressar, em seu nome e no dos cidados, seus agradecimentos aos soldados do pas vizinho, que abrilhantaro o Torneio Real. Seja amvel, simples e breve. Ningum aprecia discursos longos e empolados. A propsito, j encarreguei vrios homens a dar a notcia do torneio pelas cidades e aldeias do principado. Todos ho de querer estar presentes ao evento.
- Falta fazer muita coisa, claro, mas estaremos preparados para receber grande nmero de pessoas. Haver muitos lugares nas arquibancadas e espao  vontade para quem preferir circular pelo terreno - disse o conde.
- Como vocs podem ver, quando dois homens como ns resolvem fazer alguma coisa, tudo sai perfeito e em tempo recorde - observou o prncipe, sorrindo.

- Vocs no so nada modestos, mas ns os admiramos - Zuleika falou, sorrindo tambm. Ela voltou-se para Adele. - Posso redigir o seu discurso. Se voc decor-lo, sentir mais confiana em si mesma.
- Obrigada! Muito obrigada! - Adele agradeceu calorosamente. J fiz vrios discursos, mas para as minhas governantas e professores.
- Desta vez voc falar para milhares de pessoas e todas elas estaro achando voc maravilhosa - o prncipe disse, com convico.
- Ser? - Adele duvidou. - Receio ser um fracasso. Neste caso... todos ficaro desapontados... comigo.
O conde ficou de p, segurou a mo de Adele e levou-a at o espelho com rica moldura entalhada que havia no salo.
- Olhe para este espelho mgico - ele pediu.
A princesa obedeceu.
- O que est vendo?
- S vejo eu mesma.
- Exacto! O povo tambm s ver voc. Ver uma jovem lady linda, elegante e, claro, que ama o pas e sua gente. Portanto, quando voc estiver no palanque da praa, lembre que todos estaro vendo essa figura do espelho. O que h de amedrontador nisso?
- Ora, Franz, voc est zombando de mim - Adele reclamou, rindo. - Em todo caso, vou lembrar-me do que acaba de me dizer.
Atenta aos dois, Zuleika achou que o conde sabia como lidar com a princesa e ambos pareciam se entender muito bem.
De repente ela lembrou que no vira sinal do prncipe Majmir desde o dia de sua chegada. Inclinou-se para o prncipe Vaslov ela perguntou em voz baixa, para Adele no ouvir:
- Voc tem idia de onde possa estar Sua Alteza Real?
- Imagino que ele esteja muito feliz, bebendo em seus aposentos, completamente alheio ao que est acontecendo no pas - o prncipe Vaslov falou com desdm. - Parece que a nica pessoa que o v  o camareiro-mor.
Um estranho pressentimento deixou Zuleika inquieta, mas ela no fez comentrio algum. Levantou-se da poltrona e disse:
- Quero deitar-me mais cedo. Tenho muito o que fazer amanh e ainda vou escrever o discurso para Adele decorar. Vocs, homens, tambm devem ir para os seus aposentos.
- Tentaremos obedec-la. Mas antes de subir quero mostrar a Franz um dispositivo que inventei para alertar os soldados em caso de perigo.
- Que perigo pode haver? - indagou Adele que se aproximara com o conde.
- At os soldados sofrem acidentes com suas armas e seus cavalos - Zuleika respondeu depressa. - E voc j deve ter percebido que ao prncipe Vaslov no faltam idias brilhantes.
As duas deram boa noite e saram do salo.
- Estou pensando no desfile dos soldados - disse Adele quando elas estavam no corredor. - O povo vai vibrar ao ouvir a Banda Militar de Cieszyn.
- Tambm gosto de ouvir uma banda.  to alegre - observou Zuleika. - Agora d-me alguns minutos para eu escrever o discurso. Leia-o diversas vezes antes de dormir e releia-o amanh cedo. Ver como conseguir falar ao povo calmamente e ser um sucesso.

Em seu quarto Zuleika foi at a secretria, seguida de Adele e redigiu sem dificuldade um discurso pequeno mas objectivo.
- Aqui est o discurso. - Zuleika entregou  princesa, pouco depois, a folha de papel. - Leia-o, decore os pontos importantes e dirija-se ao povo como se falasse com amigos. Demonstre que deseja o bem de sua gente.  o que todos querem ouvir.
- Seguirei seus conselhos e os de Franz. - Adele deu um grande abrao na amiga. - Voc  to bondosa e paciente comigo. Tambm parece uma fada para ter transformado tudo neste palcio e na minha vida desde que chegou.
- As mudanas continuaro, para melhor, naturalmente - Zuleika finalizou.
Ficando sozinha ela pensou no prncipe Vaslov. Era encantador. Quanto mais conversava com ele mais o admirava. Seu pas, por certo, era muito bem governado e o povo viria feliz.
Era estranho, mas ela sentira vrias vezes que podia ler o pensamento do prncipe e ele tambm parecia estar lendo o dela.
"Talvez ele tambm tenha um "terceiro olho" o que  raro, mas no  impossvel", considerou.
Depois de deitada Zuleika continuou a pensar em Vaslov. S de lembrar que o veria logo pela manh sentiu o corao pulsar mais forte. Era uma pena que no pudessem cavalgar, pois iriam  praa ver a chegada dos soldados e da banda militar.
Sem dvida, ele era o homem mais belo, mais simptico, mais inteligente e especial que ela j conhecera.

s nove e meia as princesas, o prncipe Vaslov e o conde j se achavam no hall, elegantemente trajados para ir  praa. Deviam estar l s dez em ponto.
Adele usava um chapeuzinho que no lhe escondia o rosto. Na verdade ela havia escolhido um chapu de aba larga, certamente encantador, porm Zuleika a aconselhara:
-  um erro a realeza esconder o rosto. Este outro chapeuzinho deixa ver seus olhos que so muito expressivos e traduzem o que voc est sentindo realmente.
- Nunca pensei nisso antes. No sei o que faria sem a sua orientao - dissera Adele suavemente.
At os velhos ajudantes-de-ordens admiraram as princesas. O camareiro-mor, porm, tinha a expresso carrancuda de sempre.
Zuleika sabia que ele estava horrorizado com o que acontecia ao redor do palcio.
- O camareiro-mor quase teve um ataque quando lhe dissemos que os oficiais de Cieszyn iriam ocupar a ala oeste - sussurrou o conde a Zuleika, pouco antes de ela subir na carruagem. - Ele frisou que no aceitaria mais nenhum hspede no palcio.
- Se a princesa Adele concordar em receber mais hspedes ele ter de obedec-la. Esse homem no pode ser mais desagradvel, mas o primeiro-ministro disse que  quase impossvel nos livrarmos dele - Zuleika observou tambm em voz baixa.
- O melhor a fazer  ignor-lo - o conde aconselhou.
As princesas foram para a praa numa carruagem aberta puxada por quatro cavalos brancos. Anton Bauer e Pieter Seitz acompanharam-nas.
O prncipe Vaslov e o conde, cada um deles montando um magnfico puro-sangue, foram  frente da escolta. Trajavam uniforme de gala e chapu com plumas.

Nas ruas da cidade a princesa e sua escolta chamaram a ateno de todos. Como a carruagem seguia devagar, vrias pessoas acompanharam-na at  praa.
No palanque, decorado com as cores de Krnov e flores, havia cadeiras para as princesas e todas as autoridades. O primeiro-ministro j se achava  entrada do palanque e ofereceu a cada uma das princesas um buqu de rosas.
Pouco depois de todos estarem acomodados ouviu-se ao longe o som da banda militar.
- Est chegando o reforo que espervamos - segredou Zuleika ao primeiro-ministro que estava do seu lado.
- Vou agradecer ao prncipe Vaslov por ter chegado no momento exacto, como respostas s nossas preces - murmurou o primeiro-ministro.
A banda estava mais prxima e a multido ficou atenta, olhando na direco de onde o som vibrante de uma marcha militar.
Os soldados, trajando vistosos uniformes formados de tnica vermelha com dragonas e gales dourados, calas brancas e impressionante chapu emplumado, entraram na praa e tomaram suas posies em frente do palanque.
Quando todos os pelotes se alinharam e tomaram posies de sentido, a banda militar executou o Hino Nacional de Krnov.
Nesse momento todos ficaram atentos ao hino e  princesa Adele que ficara sozinha, de p,  frente de todos os que se achavam no palanque.
Terminado o Hino Nacional os soldados apresentaram armas e a princesa Adele fez seu discurso. Falou devagar, com clareza e espontaneidade, encantando a todos.
Foi to aplaudida que Zuleika custou a acreditar que aquela gente que batia palmas e acenava era o mesmo povo aptico que j se acostumara a ver nas ruas. A princesa tambm acenou para sua gente.
Todos fizeram silncio quando o primeiro-ministro foi para a frente do palanque e ficou de p junto da princesa para fazer tambm um pequeno discurso.
Deu as boas-vindas ao prncipe Vaslov e agradeceu-lhe por trazer parte do seu Exrcito para o Torneio Real, um evento jamais acontecido antes em Krnov e que, sem dvida, deixaria os cidados felizes.
Finalizou dizendo que o Torneio Real fazia parte de uma srie de eventos comemorativos do dcimo oitavo aniversrio da princesa Adele.
Atingindo a maioridade Sua Alteza Real passaria a governar o principado, uma vez que o prncipe Majmir no se encontrava bem de sade.
Como soberana, a princesa Adele pretendia trazer a Krnov um progresso jamais visto at ento. As riquezas minerais seriam exploradas, as terras cultivadas, haveria mais escolas e mais hospitais.
O primeiro-ministro tambm foi muito aplaudido.
A banda comeou a tocar e os soldados fizeram demonstraes interessantes de tctica militares, exerccios e marchas.
Por fim, o povo foi convidado para assistir ao torneio que seria realizado do lado do palcio, a partir do dia seguinte, durante uma semana.
A volta da princesa Adele ao palcio foi triunfal. O prncipe Vaslov e o conde cavalgaram  frente da banda militar at o local onde seria realizado o torneio.

Atrs da banda seguiram os pelotes de soldados e por fim a carruagem com a princesa Adele e seus acompanhantes.
O povo acenou para a princesa e vrias crianas seguiram saltitantes atrs da carruagem.

Aps o excelente almoo o prncipe Vaslov disse ao conde.
- Ainda temos muitas coisas para fazer. Quero ver os treinos dos soldados. Ser um vexame se alguma coisa no sair perfeita.
- Se fosse outra pessoa que estivesse organizando tudo isto eu teria medo de o espectculo no sair a contento. Mas voc consegue at o impossvel. Comeo a acreditar que seja capaz de tornar uma pedra em ouro - exagerou o conde.
- Seria bom se fosse verdade - disse o prncipe rindo. - Mas admito que at o momento tudo saiu bem melhor do que eu esperava.
Ele voltou-se para a princesa.
- Voc falou muito bem, Adele - elogiou-a. - No parecia que era a primeira vez que falava em pblico.
- Sa-me bem... mesmo? - a princesa indagou, encabulada.
- Foi um discurso perfeito - aparteou o conde. - E voc estava ainda mais adorvel do que ontem  noite quando a coloquei diante do espelho.
Adele enrubesceu.
- Graas a voc e a Zuleika tive confiana em mim. Se eu pudesse, gostaria de dar-lhe um bonito presente. Mas receio que papai se zangue.
- Para mim, e acredito que tambm para o conde, o maior presente  v-la feliz e pondo em prtica tudo o que ensinamos ou sugerimos que voc faa. - Zuleika olhou para o prncipe Vaslov e completou: - Quanto ao prncipe Vaslov, no posso responder por ele.
- Eu? - Vaslov pareceu surpreso. - S desejo a felicidade da adorvel princesa Adele.
Embora falasse com Adele, o prncipe dirigiu a Zuleika um olhar to penetrante que pareceu tocar-lhe a alma. Ao mesmo tempo ela viu-se invadida por uma emoo estranha, mas maravilhosa, indescritvel.
Por alguns segundos ela no conseguiu deixar de olhar para o prncipe.
- Vamos, Vaslov - a voz do conde a fez voltar  realidade. - Temos muito trabalho  nossa espera. Eu o ajudarei nas barracas, depois voc me ajudar a tomar algumas providncias para o grandioso baile.
- Se o baile  em minha homenagem, quero fazer um pedido: podemos organizar um cotillon? - Adele perguntou a Franz.
- Claro! - ele assentiu. - No h problema nenhum. Mas voc e Zuleika ficam encarregadas de arranjar os presentes.
- Arranjaremos - Adele prometeu. - Pode deixar isso por nossa conta.
- Alm do cotillon podemos ir pensando em mais alguma coisa interessante para o seu baile - props o conde.
- Voc  to amvel!  o homem mais maravilhoso que j conheci. - Adele abraou o conde e deu-lhe um beijo no rosto.
- Quero um presente como este no cotillon - pediu ele. - Mas exijo exclusividade!
- Prometo que ter - Adele assegurou. - Ningum tem feito mais por mim do que voc e Zuleika.

Os dois amigos saram apressados da sala e as princesas trocaram idias sobre os presentes que poderiam ser oferecidos no cotillon.
Chegaram  concluso que a melhor coisa a fazer seria mandar Anton Bauer  cidade pedir a alguns lojistas que mandassem ao palcio uma variedade de presentinhos, prprios para o cotillon, para Sua Alteza Real escolher.
Depois de ter falado com Anton Bauer, Zuleika apoiou os ps em uma banqueta e disse  amiga:
- Vou descansar um pouco, afinal eu mereo.
- Claro que merece! - Adele concordou. - Eu vou dizer aos jardineiros como eu quero os arranjos de flores no salo de baile.
Quando a princesa se afastou Zuleika seguiu-a com o olhar aprovador. Era muito bom ver que Adele comeava a tomar decises e a dar ordens.
Zuleika fechou os olhos e adormeceu, vencida pelo cansao. Sonhou que danava com Vaslov. Sentia-se to feliz no sonho que acordou com um sorriso nos lbios.
Ao abrir os olhos, viu o prncipe  sua frente, fitando-a.
- Eu... adormeci - murmurou como se precisasse desculpar-se.
- Eu fiquei aqui admirando-a em silncio e comparando-a  Bela Adormecida. No! Voc  muito mais linda do que a Bela Adormecida ou qualquer outra mulher - Vaslov corrigiu.
Ele sentou-se do lado de Zuleika e sua expresso tornou-se grave.
- Estou muito preocupado, Zuleika.
- Por qu?
- J houve muitas mulheres na minha vida, mas nunca encontrei algum como voc. Voc  diferente.
Era o que ela tambm pensava a respeito dele, mas sentiu-se incapaz de dizer alguma coisa. Baixou os olhos, um pouco embaraada por que sabia que enrubescera.
- Voc  incrivelmente linda - o prncipe prosseguiu - entretanto, no creio que tenha havido muitos homens em sua vida.
Zuleika sorriu.
- At vir para Krnov eu era muito feliz com meu pai e convivi com pessoas mais velhas, da idade dele.
- O que voc j fez neste palcio e pela princesa Adele  algo extraordinrio. At parece que voc tem uma varinha de condo.
- No duvido disso, mas o que farei com o que sinto por voc?
- O que voc quer dizer com isso? - Zuleika arregalou os olhos, pasmada.
- No preciso responder a essa pergunta, pois voc sabe muito bem o que eu quis dizer.
O prncipe ficou de p e saiu do salo.
Quando a porta se fechou atrs dele, Zuleika levou a mo ao peito para aquietar a agitao interior.
Estava apaixonada.
Sabia agora que se apaixonara por Vaslov assim que o conhecera. Aquela vibrao que viera dele quando se tocaram e aquela facilidade com que parecia ler seus pensamentos s podia ser amor.
Todavia, o prncipe Vaslov estava decidido a casar com Adele para salvar Krnov e os outros dois principados independentes da ganncia dos prussianos.
De que adiantava ambos se amarem se esse amor era impossvel?


O prncipe Vaslov no apareceu para o ch e o conde ficou no salo apenas durante alguns minutos. Teria de voltar para as barracas para acabar de alojar os soldados que haviam chegado.
- Parece impossvel que poucos dias atrs no sabamos o que fazer para defender Krnov - lembrou o conde. - Agora temos quase excesso de soldados.
- No podemos afirmar que so os prussianos infiltrados na cidade e quantos nos espreitam do outro lado da fronteira.
- Sei disso e estamos tomando todas as precaues para que o inimigo no nos surpreenda. H soldados cercando todo o palcio.  claro que o primeiro alvo do inimigo  o prncipe Majmir. brio ou no, ele  o soberano e se for eliminado os prussianos tero Krnov praticamente de mo beijada.

Os presentes para o cotillon chegaram e Adele passou um bom tempo seleccionando os que achava mais bonitos e apropriados para a dana. Zuleika procurou no opinar e deu liberdade de escolha para a princesa.
S na hora de pagar a conta as duas lembraram-se que seriam obrigadas a falar com o camareiro-mor.
- Tenho medo de falar com aquele homem - alegou Adele. - O que farei se ele se negar a pagar a conta? 
- Ele no criar problemas. A quantia no  to alta assim - Zuleika argumentou.
Quinze minutos depois de ter sido chamado, o velho camareiro-mor entrou no salo.
- Lamento aborrec-lo, mas eu precisava entregar-lhe esta lista dos artigos que Sua Alteza Real comprou para que o pagamento seja efectuado.
- Pagamento? Que artigos so esses?
- Sua Alteza Real comprou alguns presentes para o cotillon. No  muito dinheiro.
- Cotillon? Que cotillon?
- No grande baile em homenagem  princesa Adele haver um cotillon.
- Outro baile? No podemos gastar tanto dinheiro com futilidades - replicou o camareiro-mor agressivamente.
- Est bem. vou pedir ao primeiro-ministro que pague essa pequena compra. Eu acho um absurdo recorrer a ele por causa dessa quantia irrisria.
O camareiro-mor ergueu as mos, exasperado.
- O que est acontecendo aqui? J no h ordem neste palcio! Vejo soldados por toda a parte e a todo instante chegam mais hspedes. E tudo isto com permisso de quem?
- O senhor no pode negar hospitalidade a soldados e oficiais que tentam salvar Krnov de ser tomado por prussianos.
- Nosso pas pode ser tomado pelos prussianos? Nunca ouvi tamanho absurdo!
- Se no est apreensivo ou, pior ainda, se duvida, senhor, aconselho-o a falar com o prncipe Vaslov. Sua Alteza Real veio at aqui com seus soldados para assegurar independncia de Krnov.
A expresso do camareiro-mor era de perplexidade.
- No acredito - declarou.

- Ento fale com o primeiro-ministro, senhor. Ele parece ser a nica pessoa do governo a enxergar o perigo que corremos. E se o prncipe Vaslov e o meu pai decidiram intervir,  porque esto muito preocupados. Se Krnov perder a independncia, Opava e Cieszyn tambm podero cair nas mos dos prussianos.
- Para mim, tudo o que est dizendo  um contra-senso - rematou o camareiro-mor e afastou-se zangado.
Zuleika olhou para a lista com os preos dos presentes e suspirou.
Teve ento a idia de recorrer ao prncipe Vaslov, que era muito rico e generoso. Ele pagaria com prazer aquele pequeno gasto feito com a princesa Adele, com quem ele iria casar.
O pensamento a fez sentir forte dor no corao. Foi como se tivesse recebido uma punhalada.
"Como posso ser tola a ponto de me apaixonar por um homem que mal conheo?" censurou-se.
Era estranho que, embora a razo lhe dissesse que seu amor pelo prncipe era impossvel, ela sentia que Vaslov era o homem dos seus sonhos e que haviam sido feitos um para o outro.

Ao jantar foi muito difcil para Zuleika comportar-se com naturalidade. No se atrevia a olhar para Vaslov, receando que ele pudesse ler seus pensamentos.
Ela chegara a alterar a disposio das pessoas  mesa para sentar-se perto de um dos oficiais. Devia manter-se o mais distante de Vaslov quanto possvel.
Depois do jantar, quando Zuleika e Adele deram boa noite e iam subir para seus aposentos, o conde avisou-as.
- Amanh a princesa Adele deve inspeccionar a pista de corridas e o terreno onde ser realizado o torneio. At l as obras devem estar quase concludas. Sairemos do palcio s dez.
A princesa, naturalmente, exultou com a notcia, j antecipando o prazer do passeio na companhia do conde.
Zuleika deu-lhe a mo e quase precisou arrast-la para fora do salo, a caminho da escada.
Zuleika acordou de repente.
Lembrou-se de que se deitara pensando em Vaslov e sentindo-se extremamente infeliz porque ele iria se casar com a princesa Adele.
Certa de que no suportaria assistir ao casamento de ambos, chegara a pensar em voltar para casa.
Por fim, adormecera e sonhara com o prncipe. Estavam ambos no jardim, como no dia em que o vira pela primeira vez. Ento, despertara.
Zuleika abriu os olhos. O quarto estava em silncio e na penumbra. Uma tnue claridade filtrava-se pelos lados das cortinas.
Tudo parecia tranquilo, porm Zuleika teve certeza de que havia alguma coisa errada. Eles corriam perigo.
Sua intuio, ou "terceiro olho", a alertava que o perigo era cada vez mais iminente.
Ela tentou se convencer de que estava enganada, mas seu pressentimento era forte demais para ser considerado fruto da imaginao.
Saltou da cama, correu at  janela e afastou uma das cortinas. Viu o jardim e a fonte prateada pelo luar e teria ficado ali admirando o cenrio, no fosse ter percebido alguns arbustos se mexendo.

Como no ventava, ficou atenta. Percebeu ento que algum se movia entre as plantas, protegido pela sombra das rvores. Logo constatou que no era uma pessoa, mas diversas, e vinham na direco do palcio.
Agora via o perigo que antes s pressentira. Tinha de agir imediatamente.
Sem pensar duas vezes, saiu correndo do quarto, s de camisola, e entrou no cmodo vizinho sem bater; sabia que era o quarto do prncipe Vaslov. 
- Acorde! Depressa, acorde! - Zuleika sussurrou ao chegar perto do grande leito dossel onde o prncipe dormia.
Ele acordou imediatamente.
- O que foi? - indagou com a prontido de um soldado.
- Vi da minha janela vrias pessoas andando entre os arbustos e indo para a outra ala do palcio - Zuleika informou em voz baixa.
- Acorde Franz. Enquanto isso eu me levanto e me visto.
Zuleika obedeceu.
- Era o que eu esperava - disse o conde ao ouvir a informao de Zuleika. - Volte e avise Vaslov para dar o alarme,. Vou proteger Adele.
No corredor Zuleika encontrou o prncipe j vestido e carregando um grande objecto . em voz baixa deu-lhe o recado do conde sobre disparar o alarme.
-  o que vou fazer.
Ele entrou no quarto de Zuleika e foi at a janela. Tudo estava em silncio; a folhagem, ao luar, no se mexia. O prncipe foi depressa para a outra janela e, de facto, percebeu que havia pessoas sob uma rvore e atrs de um canteiro.
Ele ergueu o objecto que tinha na mo e o arremessou para fora da janela e bem alto. O objecto explodiu e emitiu uma luz brilhante. Foi tudo to inesperado que Zuleika deu um grito.
- Est tudo bem, querida - Vaslov acalmou-a. - Esse disparo foi para nos trazer reforos.
O prncipe tomou Zuleika nos braos e beijou-a suavemente.
O contacto dos seus lbios com os de Vaslov fez com que ela se sentisse flutuando.
Quando voltou  realidade teve conscincia do perigo que eles corriam.
- Agora fique escondida do lado da cama. - Vaslov aconselhou-a.
Ela abaixou-se junto de uma coluna e ficou atenta a Vaslov, que no se afastava da janela.
Carregava na mo um revlver que acabara de tirar do cinto.

CAPTULO VII

O silncio voltou a reinar.
Ansiosa para saber o que estava acontecendo, Zuleika ergueu-se, foi at a janela e ficou ao lado de Vaslov. Ele dirigiu-lhe um ligeiro sorriso e continuou atento ao que se passava l fora.
Zuleika percebeu que dali era possvel observar a ala do palcio onde ficavam os aposentos do prncipe Majmir.
Para no atrapalhar o prncipe, Zuleika foi para a janela vizinha e espiou por um vo, tendo o cuidado de manter-se colada  parede para se proteger. Viu l embaixo, ao fim do jardim, homens se movendo apressados entre os arbustos, as folhagens e sob as rvores. Eram muitos.
Subitamente o prncipe inclinou-se para a frente e deu um tiro. Em resposta houve outro. Ento comeou o tiroteio. O barulho era ensurdecedor.
Zuleika compreendeu que os soldados do prncipe combatiam os prussianos.
Quanto tempo durou o ataque ela no teve idia. De repente o fogo cessou. Vrios corpos estavam estendidos no jardim, alm da fonte.
O prncipe e Zuleika permaneceram quietos, aguardando. Quando ele teve certeza de que no haveria mais resposta do inimigo, guardou o revlver no cinto.
- Vou procurar Franz. Depois teremos de descer para verificar o que aconteceu. Receio que o inimigo tenha tido tempo de alcanar o palcio. - Inclinando a cabea ele beijou a testa de Zuleika. - Voc foi maravilhosa - acrescentou. Graas a seu aviso o ataque dos prussianos fracassou.
- Eu acordei com o pressentimento de que corramos perigo - Zuleika murmurou.
- Bem, espere-me aqui.
- Prefiro acompanh-lo. O conde disse que ia ficar com a princesa para proteg-la - Zuleika informou. - Quando voc e ele descerem, farei companhia a Adele.
Eram apenas alguns passos at o quarto de Adele. Eles encontraram a porta entreaberta e o prncipe Vaslov empurrou-a mais um pouco.
No fundo do cmodo, abraados, estavam Franz e Adele se beijando, seus corpos delineados contra a claridade da janela. O prncipe ficou tenso e presenciou a cena romntica, como se no acreditasse no que via.
Ento fechou a porta em silncio e tomou Zuleika nos braos. Seu olhar era todo ternura.
- Se  daquele lado que sopra o vento, para mim  mais do que conveniente - declarou. - Agora, minha querida, estou livre para dizer-lhe que a amo.
No houve chance de Zuleika responder porque os lbios dele mantiveram-na cativa.
Vaslov a beijou apaixonada, louca e sofregamente, como se temesse perd-la.
Foi um momento glorioso e mgico. A impresso de Zuleika era a de que o palcio ficara l embaixo e ela alcanava as estrelas.
- Amo voc! - A voz de Vaslov soou instvel e enrouquecida. - Mas agora devo deix-la. Mais tarde falaremos sobre o nosso futuro.

Nesse instante o conde abriu a porta.
- Ah, Vaslov! Eu estava indo  sua procura. Vamos ver como est a confuso l embaixo.
- Vamos. - O prncipe virou-se para Zuleika. - Voc, garota, fique aqui com a princesa Adele.
Adele estava logo atrs do conde e perguntou, assustada:
- Ser que alguns dos nossos homens... esto mortos?
- Eu me surpreenderei se houver um morto que seja. Todos os meus soldados so muito bem treinados - o conde tranquilizou-a. - No se preocupe. Voltem para a cama. Amanh darei todas as informaes sobre o que aconteceu.
O prncipe j ia descer a escada e o conde correu para alcan-lo. Adele deu a mo a Zuleika.
- Ser que no corremos mais perigo?
- No creio que tenha ficado algum soldado inimigo para nos fazer mal - Zuleika respondeu. - Vamos nos deitar e tentar dormir um pouco. Amanh teremos muitas novidades.
- No sei... estou preocupada com Franz... - Adele murmurou. - Receio que algo lhe acontea.
-  claro que nada acontecer a Franz nem a Vaslov - Zuleika falou com firmeza. - Venha comigo. Na minha cama h lugar para ns duas.
- Oh... posso... mesmo dormir no seu quarto? Tenho medo de... ficar sozinha.
- Pois ficaremos juntas e faremos uma orao de agradecimento a Deus por termos a proteco de dois homens maravilhosos.
A grande preocupao da princesa com Franz revelava que ela amava o rapaz. Mas ser que seu amor era correspondido?
Era verdade que os vira abraados e se beijando, mas isso no significava que Franz amasse Adele ou que tivesse srias intenes com ela.
Possivelmente ela tivera medo ao ouvir os tiros e o conde a tomara nos braos para confort-la e afugentar-lhes os temores.
Por outro lado, Zuleika reflectiu, o conde no poderia ficar imune aos encantos da jovem princesa. Adele era linda, delicada e inocente.
Entrando no quarto, Zuleika fechou as janelas que haviam sido abertas e correu as cortinas. Antes de ela e a princesa entrarem sob as cobertas, ajoelharam-se para rezar.
Quando se deitou Zuleika ficou algum tempo acordada reflectindo sobre os ltimos acontecimentos e sobre a declarao que Vaslov lhe fizera.
"Tambm o amo e quero ser sua esposa. Quero ficar com ele... para sempre", ficou repetindo mentalmente.
Naquele limiar entre sono e a viglia a ltima imagem que sua mente registou foi aquela em que estava nos braos de Vaslov e ele a beijava.

- Que horas so? - perguntou Adele a Marla que acabara de entrar no quarto.
- Nove, Alteza. Pediram-me para avis-las que no devem descer e que o breakfast ser servido na sala de estar desta sute.
Zuleika ficou apreensiva. Teve certeza de que Vaslov e o conde no queriam que elas descessem porque havia acontecido alguma coisa grave.
As princesas levantaram-se, vestiram-se e foram para a sala de estar. Durante o breakfast Adele queixou-se:

- No sei por que ningum sobe para nos dizer o que est acontecendo.
- Saberemos de tudo no devido tempo - Zuleika falou calmamente.
Ocorreu-lhe que l embaixo todos estavam muito ocupados com a remoo dos corpos do jardim e cuidando dos feridos. Se os prussianos tivessem conseguido entrar no palcio talvez houvesse guardas mortos.
Duas horas depois as suspeitas de Zuleika se confirmaram.
As princesas estavam nervosssimas quando um escudeiro entrou na sala de estar para comunicar:
- Sua Alteza Real, o prncipe Vaslov, aguarda Vossa Alteza no Salo Azul.
As duas jovens puseram-se de p imediatamente e seguiram o escudeiro.
Para alvio de ambas logo  entrada do salo estavam o prncipe e o conde, sozinhos. Eles sorriam ao v-las.
Zuleika andou devagar at os dois, mas Adele correu para o conde e atirou-se nos seus braos.
- Oh, Franz... voc est bem! No se feriu! Tive tanto medo de que... alguma coisa lhe acontecesse! - exclamou.
- Nada me aconteceu, querida, excepto que fiquei muitas horas longe de voc - tornou o conde.
Os dois se fitaram, embevecidos. No se contendo, ele tomou Adele nos braos e beijou-a suavemente.
- Venham. Vamos nos sentar - ele disse em seguida. - Vaslov quer nos dizer muitas coisas e no temos muito tempo.
"No temos muito tempo para qu?", Zuleika desejou perguntar.
O prncipe tocou-lhe o brao de leve e levou-a at ao sof. Os trs sentaram-se mas ele ficou de p, de costas para a lareira.
- Em primeiro lugar, quero agradecer a vocs duas por se comportarem muito bem numa situao to inusitada - ele comeou.
No se contendo Zuleika indagou:
- O que aconteceu?
- O que Franz e eu prevamos. Os prussianos viram meus soldados chegando e compreenderam que no tinham mais chances de tomar a cidade como pretendiam - Vaslov informou.
- Ento... estvamos certos ao supor que eles planeavam invadir Krnov - Zuleika murmurou como se falasse consigo mesmo.
- Estvamos - Vaslov afirmou. - O que no sabamos com exactido era o nmero de homens que eles tinham na fronteira e infiltrados na cidade. Mas eu confiava que meus soldados eram mais do que suficientes para derrot-los. 
O prncipe fez uma pausa, depois prosseguiu:
- Completando o que eu estava dizendo, os prussianos entenderam que, se no podiam tomar a cidade, sua nica chance era sequestrar o prncipe Majmir e obrig-lo a renunciar sob a mira de um revlver.
- Oh, no! - Adele gritou, horrorizada. - Eles... levaram... papai?
- Era o que pretendiam fazer, mas no tiveram tempo - respondeu o prncipe. - Zuleika, felizmente, viu-os se movimentando no jardim e me avisou. Franz e eu j espervamos que os prussianos iriam agir dessa forma, mas eles vieram antes do que imaginvamos.

- Mas eles... chegaram at os aposentos... de papai?
- Sim. Eles iam carregando Sua Alteza Real por que ele no tinha condies de andar. Ento o fogo comeou e os homens soltaram-no.
- Graas a Deus! - Adele respirou aliviada. - Papai est vivo.
- Est vivo, mas, lamento dizer, sofreu um derrame cerebral. Ele ainda est inconsciente e aos cuidados dos mdicos.
- Pelo menos papai no est morto - Adele falou com voz sumida.
- Tambm no caiu nas mos do inimigo - completou o prncipe. - Compreenda, Adele, e procure ser forte. Seu pai talvez no viva por muito tempo. Portanto,  importantssimo que voc faa o que lhe vamos pedir.
- O... que... ? - A voz de Adele demonstrou seu nervosismo.
- Para salvar o seu pas voc deve aceitar o pedido de casamento de um prncipe. Um prncipe a quem o inimigo tema e o povo respeite - declarou o prncipe Vaslov. - Voc se casar com o filho do arquiduque von Hofmannstall, um dos homens mais importantes de Viena.
Adele empalideceu e parecia ter perdido a voz. A custo conseguiu balbuciar:
- Eu... no... compreendo. De quem voc... est falando? Eu... amo Franz.
- Creio que  chegado o momento de lhe revelar, Adele, que voc apaixonou-se por um conde, mas se cassar com um prncipe. Franz  neto do imperador da ustria - o prncipe Vaslov esclareceu.
Adele ficou perplexa.
- Um prncipe... austraco?!
- Franz veio para c acompanhando Zuleika para ajud-la a transformar este palcio, to negligenciado pelo prncipe Majmir, numa autntica residncia real.
- Vocs dois tm sido extraordinrios! - Adele dirigiu um lindo sorriso a Zuleika e a Franz.
- No importa, querida, que eu seja um conde ou um prncipe, e sim o que sinto por voc - declarou Franz abraando Adele. - Eu a adoro, quero que seja minha esposa e que nosso casamento seja celebrado depois de amanh.
- Depois de amanh?! Mas  o dia do meu grande baile! - Adele lembrou.
Franz riu.
- Pode haver maneira melhor de celebrarmos nosso casamento do que danar com nossos amigos em vez de oferecermos a tradicional e aborrecida recepo?
- Pelo menos ser... algo novo... e diferente - Adele riu tambm.
- Certo. Tudo ser novo e diferente em Krnov quando voc e eu o governarmos juntos. Ser estimulante procurar tornar este pas digno de sua beleza, minha adorada. O povo est vibrando com as atraces e divertimentos que Vaslov trouxe para c e com certeza est achando que j comeamos a transformar Krnov num reino de contos de fada.
- E eu encontrei meu prncipe encantado.
- Se vocs pretendem casar depois de amanh, temos de correr para comprar seu vestido de noiva - Zuleika apontou.
- Oh, o vestido de noiva! - Adele exclamou. - Quero estar bem bonita para Franz e... claro... para o nosso povo.

- J mandei um oficial falar com o arcebispo - avisou Vaslov. - Anton Bauer foi ver o primeiro-ministro para relatar-lhe o que aconteceu e inform-lo sobre o casamento de vocs.
Franz e Adele saram do salo de mos dadas, enamorados, segredando juras de amor.
Sentando-se do lado de Zuleika, o prncipe disse:
- Vou responder  pergunta que vejo em seus olhos. Aps o casamento deles e o grande baile, vou lev-la para junto do seu pai. Sei que voc quer se casar no seu pas. Depois do casamento teremos nossa lua-de-mel em Cieszyn mesmo, num chal das montanhas. Ento poderei dizer-lhe o quanto a amo.
- Adoro ouvi-lo - sussurrou Zuleika.
- Eu no pensava em me casar porque idealizava uma esposa to perfeita que seria muito difcil, seno impossvel, de encontrar. Mas no instante em que a vi eu soube que voc era quem eu buscava. - Vaslov deu um profundo suspiro. - Para mim foi uma agonia tomar a deciso de renunciar ao meu amor pelo bem de meu pas e Krnov.
- Compreendo. Mas tudo se resolveu de modo to perfeito. - Zuleika colocou a mo no brao de Vaslov. - Somos afortunados.
- Sim, muito. Franz e Adele tambm. Eles tomaram a deciso certa de se casarem depois de amanh. Os mdicos acham que o prncipe Majmir no viver mais de uma semana - Vaslov revelou. - Ento Franz governar este pas tendo para apoi-lo o poder e a importncia da ustria.
- De agora em diante nossos trs principados conhecero a paz e a prosperidade - Zuleika profetizou.
- Sem dvida. Mas voltemos a falar sobre ns e o nosso casamento - pediu Vaslov. - Eu no estou disposto a esperar muito tempo para torn-la minha esposa e minha princesa.
- Papai concordar que o casamento seja realizado o mais depressa possvel. Ele o admira muito, Vaslov, e ter orgulho de ser seu sogro.
- Tambm admiro demais o prncipe Laszlo e o que ele tem feito por Opava.
Vaslov contemplou Zuleika longa e amorosamente. Tinha os olhos repletos de felicidade.
A bondade divina tornara possvel o impossvel e acreditvel o inacreditvel.
Ambos haviam encontrado o amor que buscavam. O amor verdadeiro que vinha de Deus e que perduraria por toda a eternidade.

CARTLAND , sem dvida, a mais famosa escritora romntica do mundo. Entre suas inmeras qualidades, podemos citar algumas:  historiadora, gegrafa, poetisa e especialista em dietas naturais.
Actuante personalidade poltica, sempre lutou pelos direitos dos grupos menos favorecidos da sociedade inglesa, especialmente os ciganos, vivas pobres e crianas abandonadas.
Supercriativa e culta, j escreveu mais de 550 livros, editados em todo mundo em dezenas de idiomas e dialectos, tendo alcanado com essas obras a incrvel marca de 600 milhes de exemplares vendidos.

Algumas datas da vida de Barbara Cartland:

1901 - Nascimento
1923 -	 Publica seu primeiro livro
1927 - Casa-se com Alexandre McCorquodale
1933 - O primeiro casamento  desfeito
1936 - Casa-se em segundas npcias com Hugh McCorquodale, primo de seu primeiro marido
1963 - Publica seu centsimo livro
1976 - Sua filha Raine casa-se com o conde Spencer, pai da princesa Diana
1981 - A princesa Diana, enteada de sua filha, casa-se com Charles, prncipe-herdeiro da Inglaterra
1983 - Entra no livro de recorde Guinness
1991 - Recebe o ttulo de "Dama" do Imprio Britnico

FIM
